(Rodrigo Ferreira/Arquivo/CBF) Nada de justiça. As conversas sobre o jogo de bola clamam mesmo é por critério. Faz tempo que essa invocação é feita como se pudesse nos livrar dos males causados por arbitragens que, na falta dele, acabam condenadas da maneira mais veemente. Por definição, critério é um padrão usado como base para fazer uma avaliação, um julgamento, uma comparação. O último caso vem bem a calhar porque nas muitas tentativas que andamos fazendo para tentar livrar a cara de um árbitro, ou na maior parte das vezes condená-lo, é daí que partimos. Mas alcançar um padrão não é algo simples. E a coisa descamba de vez, alterando ânimos, quando fica evidente que talvez nem um mesmo árbitro consiga ter um padrão. Em outras palavras, critério. O que me faz crer que atingir essa uniformidade venha a ser algo tão complexo quanto chegar à iluminação que tanto norteia a aspiração dos budistas. Um dos hábitos muito notados é o de comparar esse lance com aquele. O que, em geral, acaba servindo como ponto de partida para contestar a decisão apresentada, já que em cada um desses momentos a decisão tomada diante deles foi diferente. Mas como o viés filosófico baixou de vez por aqui, vou tentar ampliar o horizonte do que está proposto. Portanto, vos digo: encontrar dois lances exatamente iguais – em tese – me parece tão desafiador quanto encontrar duas pessoas exatamente iguais. Coisa que nem mesmo os gêmeos conseguem ser. Um lance pode ser parecido muitas vezes com um outro, mas tudo o que o cerca provavelmente fará dele algo singular. E no fundo disso tudo está algo mais alarmante, a suspeita de que ninguém mais sabe o que viria a ser esse critério. Aproveito e deixo aqui a minha confissão de que me sinto numa infinidade de momentos parte desse time. E, digo mais, nem mesmo os boleiros, que deveriam exibir notável conhecimento a respeito da questão, se mostram competentes pra isso. Muito pelo contrário. Vejam o caso que se deu no jogo entre Grêmio e Mirassol dias atrás, quando o time do Interior paulista, jogando na casa gremista, teve um gol anulado que poderia ter mudado tudo. Quando dei de cara com a cena, de imediato discordei da decisão do árbitro. Pra dizer a verdade, a considerei quase absurda. Eis que depois do jogo o personagem que protagonizou o lance que levou à anulação do tento disse com todas as letras que a bola tinha mesmo resvalado no braço dele. O que a meu ver nem constituiria culpa, porque estava junto ao corpo, coisa que os entendidos vivem dizendo que justifica a absolvição. Mas em seguida o jogador do Mirassol objetou que discordava da decisão porque se o mesmo lance tivesse se dado no meio de campo teria sido interpretado de outro jeito. E eu me peguei a pensar em todas as variantes advindas de casos assim. Sem contar que não consegui deixar de ponderar que esperar que lances que se dão dentro da área, ou bem longe dela, sejam vistos exatamente da mesma forma não faz muito sentido. A veia filosófica me faz crer que a urgência que cada um embute e o evidente efeito que cada um pode ter quase os levam pra lados totalmente opostos. Se você chegou até aqui pensando que eu vos brindaria com uma alguma solução, peço perdão por desapontá-lo. Não sou mágico. Mas não vou perder a oportunidade de dizer que estou convencido de que, em outros tempos, quando tudo o que tínhamos eram nossos olhos e uns poucos recursos técnicos para tentar entender o todo, esse tal critério parecia algo mais factível.