Em meio a tantos conteúdos relativos à Copa e ao futebol com os quais fui bombardeado nos últimos dias, um me tocou em especial. Tratava-se de um trecho de depoimento dado por Zagallo ao Museu da Pessoa. Nele, o campeão do mundo relembrava circunstâncias que cercaram a final da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. E o fez com nobreza, para destacar a postura que tiveram os suecos a respeito do jogo decisivo. O Brasil, todo mundo sabia, não gostava de jogar na chuva, lhe fazia mal. A água jogava contra o talento, impedia a bola de pé em pé. E antes da decisão choveu muito. Choveu na quinta, choveu na sexta, choveu no sábado. Domingo, dia da decisão, não. A chuva tinha parado. O Velho Lobo, ao falar, deixava vislumbrar em seu rosto a certeza de uma lembrança que parecia ter o frescor de algo vivido no dia anterior. Pudera. E os suecos, que fariam a final com o Brasil, sabiam muito bem o que a chuva significa para o time adversário. Mas o que fizeram eles? Mandaram cobrir o gramado. Protegê-lo em nome do espetáculo. Sem dar a mínima para o proveito que poderiam tirar da situação. O fim da história todo mundo sabe. O time brasileiro impôs a eles um 5 a 2 e os suecos nunca mais voltaram a disputar o título. Resgato essa passagem porque acredito que se tem um coisa para a qual essa Copa que aí está pode nos servir é para nos jogar na cara o quanto a postura dos homens molda o futebol. Logo de cara tivemos em campo, no jogo de abertura, um árbitro brasileiro. Justo quando a arbitragem, por tudo o que andamos vivendo por aqui, deixa no ar a impressão de que ela é o pior que o futebol brasileiro tem a oferecer. E quero passar longe de qualquer veredito a respeito da atuação de Wilton Pereira Sampaio. Mas quero tomar partido e dizer que não concordo nem um um pouco com o que ouvi sendo dito por aí. Que ele lá não apitou como apita aqui. Tenho dúvidas de que poderia, uma vez que o respeito ao árbitro, as atitudes em campo, o peso de cada jogo, a exposição planetária, redundam em realidade totalmente distinta. Sem contar que os árbitros que lá estão passaram a ter recursos que até então não tinham. Regras para evitar que o jogo se transforme em enrolação. E um amparo tecnológico ampliado, que a arbitragem da partida entre Estados Unidos e Paraguai me deixou com a impressão de ter usado com maestria. Quis o destino que fosse nessa partida que eu desse de cara pela primeira vez com um jogador a esbravejar com o árbitro. E esse alguém era o zagueiro Gustavo Gómez, cujo comportamento conhecemos bem. Mas, foi um lance na linha de fundo que me fez perceber que nosso futebol aqui pode ter salvação. Foi quando o VAR, com toda a discrição necessária, avisou o árbitro de campo, o holandês Danny Makelie, que ele tinha sido iludido. Tinha sido vítima de uma dessas encenações, feita pelo paraguaio Almirón. Encenação que tinha feito o zagueiro do time norte-americano, Ream, levar o cartão amarelo. Constatada a malandragem, o cartão foi imediatamente invertido. E o meio-campista paraguaio vai poder contar para os netos um dia que foi o primeiro esperto a passar a vergonha de ser flagrado pelo VAR cometendo um ato do tipo em uma Copa do Mundo. A correção só foi possível porque havia um cartão amarelo dado. Mas acho que tá mais do que na hora de não fazer coisas dessa natureza depender de situação alguma. Constatado o flagrante, o meliante deveria ser punido, fosse qual fosse o contexto. Do jeito que está posta a mudança, creio que já será de grande valia na realidade absurda criada pelos jogadores brasileiros. Fará quem sabe evoluirmos um tanto, mas em condições como as que eu sugeri, podendo o flagrante ser dado a qualquer momento, tenho certeza de que faria nosso jogo andar um meio século para a frente. Não me iludo. Sei que isso é só o começo, que os homens do apito a partir de agora irão cada vez mais dar de cara com jogos que para serem devidamente domados exigirão deles cada vezmais. E que um espertalhão, ou um esquentadinho, pode fazer a Copa tomar ares de Libertadores.