Fosse outra a nossa história, quem sabe poderíamos ligar nossas TVs num domingo e dar de cara com um Maracanã lotado inflado pela expectativa de ver e ouvir o trinar do apito e assim testemunhar um Palmeiras e Flamengo que a realidade nos rouba. Não digo de um clássico entre alviverdes e rubro-negro como os que temos visto. E que pelo lugar que os dois times ocupam está longe de ser um jogo qualquer. E digo mesmo sabendo que aos dois não faltam nomes de peso, cuja excelência técnica está bem acima da média nacional. Mas a quimera que meu devaneio desenha tem de um lado Vinicius Júnior e, talvez, João Gomes. E do outro Estêvão e Endrick. Não tenho dúvidas que, se tivessem seguido entre nós eles e todos os talentos que o mercado do futebol nos subtrai, teríamos um outro espetáculo. Possuiríamos, quem sabe, ao menos, um caminho para tentar debelar essa falta de brilho que nos ronda, e que me causa desânimo voltar a citar. Tivéssemos um futebol um pouco mais razoável poderíamos, ao menos, tentar desafiar um pouco esse modus operandi. Já que com os milhões que os clubes recebem por entregar seus talentos em flor tratam de comprar outros, mais rodados e sem perspectivas de que se traduzam em boas vendas futuras. E há em torno de tudo isso uma glamourização. Os repatriados quase sempre são vendidos aos torcedores como prova do avanço do futebol brasileiro que em outros tempos nem poderia pensar em concorrer com os contratos oferecidos a eles mundo afora. E é fato que o que proponho aqui vai muito além de Palmeiras ou Flamengo. O Vasco, por exemplo, poderia ser outro se o jovem Rayan, que acaba de se tornar a maior venda da história do clube, ainda vestisse a camisa cruzmaltina. Exemplos não faltam, infelizmente. Lembro bem do meu encantamento com Vitor Roque nos tempos em que precederam a venda dele para o Barcelona. Andava jogando demais. E lembro de pensar com meus botões o quanto isso empobrecia nosso futebol. As vendas, aliás, e não só de jovens, podem provavelmente explicar o período um tanto sombrio pelo qual andou passando o Athletico-PR. Mas o torcedor brasileiro se acostumou com essa dilaceração que os cartolas juram com toda a beatitude que é um mal necessário. E assim vamos. Nos últimos cinco anos o Palmeiras se fez o quarto clube no mundo que mais lucrou com a venda de jogadores da base. Negócios que movimentaram um R\$ 1,7 bilhão. Interessante ler nas matérias a respeito do tema que brotaram nos últimos dias que esse sucesso se deu por mudanças estruturais que fizeram do clube uma potência exportadora. E, vejam a afirmação do discurso, consolidaram o clube como uma fábrica de talentos, que perdeu apenas das do Chelsea, do Manchester City e do Aston Villa. Faço essa reflexão acreditando que um esforço no sentido de manter a maior parte desses garotos seria a mais eficaz das fórmulas para fazer do futebol brasileiro algo mais respeitável, mas também tenho dúvidas sobre o nosso jeito de encararmos o jogo de bola e seus personagens. Tendo a achar que, no final, ser vendido por milhões acaba sendo decisivo para que o talento e o valor desses meninos sejam reconhecidos, e que se ficassem por aqui talvez acabassem moídos por essa realidade nada justa que costuma reduzir um jogador a herói ou vilão.