[[legacy_image_259933]] Não há a menor dúvida de que nos últimos anos o discurso sobre futebol se tornou mais científico. A retórica que cerca o jogo está infinitamente além dos números que versam sobre a posse da bola, outrora a vedete do segmento. Vivemos a era em que os mapas de calor desnudam tudo e são turbinados pelos dados de finalização, desarme e afins. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Mas é interessante notar que o papo sobre futebol não acompanhou tudo isso. Continua sendo de viés humano, levando em conta detalhes que nunca aparecem em scouts. A maneira de agir de um treinador, a marra de um atacante, a grossura ou o carisma desse ou daquele zagueiro. Por mais que os zagueiros gostem mesmo é de parecer cruéis. Enfim, não é de se estranhar que a coisa tenha tomado esse caminho, digamos, moderno. Nos últimos tempos, ofícios como os dos analistas de desempenho ganharam destaque. E com os clubes se blindando cada vez mais, deixando de divulgar muitas vezes as listas de jogadores relacionados para os jogos e até mesmo a condição física de atletas lesionados, é inevitável que as informações desse universo científico acabem por contaminar o discurso da crônica esportiva. Mas confesso que estou pra ver uma acalorada discussão sobre futebol em uma mesa de bar ter como combustível divergências sobre linhas altas ou baixas, sistemas 4-4-2 ou algo que o valha. Gosto de pensar que esse discurso boleiro impregnado do que é puramente humano é a grande peça de resistência desse universo atualmente. O jogo em si há muito se rendeu. Outro viés interessante sobre o assunto é que, com a chegada de um grande número de treinadores estrangeiros, tem sido possível sentir uma certa falta de compreensão com determinados conceitos que eles fazem questão de adotar. Sendo de longe a maneira de lidar com o elenco a que mais se sobressai. Vitor Pereira, até pelo fato de ter estado à frente de dois dos times de maior torcida do País, amplamente acompanhados pelos veículos de comunicação – seja lá o que isso queira dizer hoje em dia –, é dos mais incompreendidos. Tanto no Corinthians quanto no Flamengo pareceu executar infinitos esforços para que o torcedor não tivesse muito claro o que era o time titular dele. O que não teria sido problema se essa indefinição viesse acompanhada de triunfos. O torcedor que ver em campo os melhores, esperar que ele desenvolva algum tipo de simpatia para o que se convencionou chamar de time alternativo é ingenuidade. E é aí que se encontra uma questão importante demais e para a qual também não tenho opinião formada: o quanto essa falta de compreensão a respeito do que virou o futebol acaba por fragilizar um treinador. Já que parece óbvio que ninguém é realmente capaz de defender o que não entende. Imaginar que um corneteiro dos bons vai levar em conta o que viu estampado em um mapa de calor, ou será capaz de se contentar com um scout que dê a impressão de questionar uma derrota, é algo que não cola. Os interessados em fazer esse meio de campo entre quem escala e quem corneta deveriam ter sempre em mente a necessidade de unir essas duas pontas. Uma fórmula desafiadora que faria seu criador ter a atenção do primeiro e o respeito do segundo.