(FreePik) A essa altura, dizer que o nosso futebol tem virado uma coisa muitas vezes medonha é chover no molhado. Posso estar errado, mas o nível de descontentamento do torcedor evolui de maneira preocupante. E não é pra menos. Fosse eu dirigente, começava a me preocupar seriamente com isso. Ideias para nos tirar desse pântano sempre pintam na área. A urgência dos fatos as faz nascer. De minha parte, estou convencido que a mais eficaz das estratégias seria tornar a arbitragem mais severa. E pensando bem, talvez nem seja esse o caso. O que ela precisa é apenas fazer valer a regra. Aplicá-la com rigor. E é claro que isso pode soar um tanto estranho porque os árbitros nunca foram tão vistos com tamanha desconfiança, aos menos os nossos. Sendo assim, acreditar que eles são os mais indicados para colocar ordem no barraco pode suscitar piadinhas. De todas as teorias que o jogo faz nascer, entendo a boa intenção daquela que prega que árbitro bom é árbitro que deixa o jogo rolar. Mas pensando bem, esse tipo de postura vai no sentido contrário do que precisamos pois, ainda que não queira, deixa pairar no ar um quê de permissividade. E acho que do jeito que a coisa anda, o que precisamos é de um simples cumpra-se a regra e nada mais. E esse tipo de atleta que leva um leve toque no pescoço e cai no chão se contorcendo como se lhe tivessem arrancado os olhos é merecedor, no mínimo, de um cartão amarelo de tanto que atenta contra o bom andamento do jogo. E isso está aí plenamente banalizado. São raros os casos de punição do tipo. Em geral, elas acontecem nos extremos, como quando um piadista como Deyverson aceita correr o risco do mais absoluto ridículo. Se querem uma prova de que andamos longe do indicado e desse básico cumpra-se a lei, notem que há um certo consenso que vigora entre os entendidos do jogo de bola que reza que um árbitro não deve estragar um jogo. Com isso querem dizer, entre outras coisas, que se um jogador comete uma falta dessas sinistras no começo de uma partida, deve-se evitar a expulsão. Se for o caso, aplicar um quase indolor cartão amarelo. E assim agir num sem fim de situações. Ora, uma falta pra expulsão deve ser tratada como uma falta pra expulsão e ponto. Cheguei a ficar surpreso, imagino que como muitos, ao ver no clássico entre São Paulo e Palmeiras no último sábado o goleiro Carlos Miguel levar um cartão amarelo por retardar a saída de bola. Coisa que ele, e tantos outros arqueiros, fazem constantemente. E como agiu o cidadão ao levar o amarelo? Obrigado a colocar a bola em jogo, zombou da cara do árbitro dando em direção à bola uma corridinha fajuta, que se fez puro deboche. Por certo levou em conta a máxima: ele acabou de me dar o amarelo, não vai dar o vermelho. Como não deu. Mas deveria. Teria sido merecido. E a grita seria geral. Ainda mais se tratando de um time comandado por uma comissão técnica dirigida por Abel Ferreira, que cansa de dar maus exemplos na hora de lidar com a arbitragem. Algo que, aliás, tá mais do que na hora de ser coibido. Em outras palavras, salvar o nosso futebol não é algo que poderá ser feito sem atitudes contundentes. Os indisciplinados, que se enquadrem todos. Chegamos a um ponto em que salvar o espetáculo provavelmente exigirá compromete-lo. Que seja. E não que isso nos abrirá as portas do paraíso ludopédico. O resto talvez se resolva a partir dos treinos com bola. Para que uma vez remediada a questão do comportamento inadequado possamos cuidar de quem é incapaz de acertar o gol chutando da entrada da grande área. Dos que por temor evitam passes longos e teimam em tocar a bola pro lado. Aí quem sabe partidas com duas ou três chances de gol em cada tempo passem a ser algo raro. Aí quem sabe o futebol brasileiro volte a respirar com vigor e se faça capaz de desenhar um jogo que árbitro algum será capaz de estragar, nem que seja por vergonha de se revelar o único pereba em campo.