(Rodrigo Coca / Corinthians) Desde que assumiu o comando do Corinthians, o técnico Fernando Diniz tem claramente optado pelo que eu chamaria de uma gestão passional. Num primeiro momento, isso pode parecer não fazer muito sentido, já que o treinador, ao longo de toda sua carreira, demonstrou ser um profissional com esse perfil, sempre emotivo. Tudo muito afinado com sua formação. Sua condição de psicólogo. Mas, no Corinthians, tenho a impressão, tudo tomou um outro tamanho. Não por acaso. A história pessoal dele legitima o discurso. O faz forte. Já ouvi até quem tenha dito que tanta ênfase poderia dificultar possíveis idas futuras a outros times da Capital. Mas se há uma coisa que se deve reconhecer em Diniz é a coragem. Muitos treinadores por aí já foram chamados de convictos, no bom e no mau sentido, mas poucos, muito poucos, de tantos que temos acompanhado, agiram dando a impressão de não ter a mínima preocupação de manter o emprego. O jogo desse mineiro sempre foi outro. Fé cega no jeito de interpretar o jogo e a vida. E isso explica certamente por que as emoções que desperta em geral estão nos extremos. E acabam por emprestar algum sentido a essa coisa já meio batida de ser, ou não ser, Dinizista. Desde a primeira coletiva dada na condição de técnico do Timão, Diniz ressaltou seu mais de meio século vivendo na zona leste paulistana, reino corintiano. O fato de morar no bairro do Tatuapé. E talvez isso me soe tão cheio de sentido porque lá também tenho raízes. Nasci na maternidade Cristo Rei que, outro dia me disseram, nem existe mais. Não discuto a estratégia. Mas quero confessar que ela tem me feito pensar muito sobre o mito de ser corintiano. Um mito, como se sabe, é uma narrativa que explica certos aspectos culturais de um povo. Aqui, no caso, leia-se torcida. E em certo sentido o enredo da última partida do time na Libertadores, com um gol livrando o time da derrota nos acréscimos, foi creditado a esse mito corintiano. Quem sou eu para negar. Mas vou achar sempre prudente lembrar que comungo de certo ateísmo ludopédico, que me faz entender que as conquistas sempre exigirão que se jogue um pouco de bola. E digo isso porque não faz muito tempo ouvi um amigo pregar que essa coisa de ter garra e tal não é exclusividade de ninguém. Observação difícil de contestar num primeiro momento. Mas como me dou o direito de ter também certas crenças, confesso certa dificuldade em não reconhecer nos corintianos, se não a raça sem igual, a fé. Que atire a primeira pedra aquele que, amando, jamais sofreu pelo time que torce. Portanto, sofredores todos somos. O que enxergo é esse traço. Em outros tempos, muito comentado, mas que ultimamente não vejo tão em evidência assim, falo da tal fé corintiana. Da notória fiel torcida. E sei que ela deve andar sendo testada por todos os pecados que têm transformado um dos clubes mais populares do País em um verdadeiro caso de polícia. É óbvio que a fé também jamais será exclusividade de ninguém. O amigo Oscar Ulisses, observador sagaz das coisas que se dão em campo, alimenta a teoria de que o corintiano, mais do que qualquer outro torcedor, se importa é com a vitória. Não interessa que ela venha no último centésimo, ou seja fruto de um futebol que não se dá ao respeito de ser chamado de elogiável. Quem sabe não seja possível explicar isso por uma capacidade de fé fora da curva. Pois diante de um desfecho do tipo, só um fiel pode se achar verdadeiramente atendido. E, cá entre nós, só com muita fé pra acreditar que dá pra ser campeão da Libertadores, ou que ainda não é tempo de começar a levar o Brasileirão a sério. Seja como for, Diniz deixou claro que, pra qualquer missão com o Alvinegro, faz questão de relacionar o mito.