(Imagem ilustrativa/Priscilla Du Preez/Unsplash) Não sei se apostar tem sido uma de suas diversões. Mas pelos números que as tais bets estão fazendo nascer, é bem provável que muitos dos que passarão os olhos por estas linhas já tiveram recursos engolidos na tentativa de faturar algum. Não estou aqui para julgar ninguém, mas talvez possa dar pequena contribuição para mostrar o tamanho do problema. O que é fácil entender é como certas notícias são dadas sem que nada de urgente aconteça. Este tem sido o viés mais óbvio do mundo que construímos e no qual manchetes bizarras muitas vezes nem espanto causam. E as apostas em nosso país as têm gerado aos montes. Uma das últimas que eu li dava conta de que, apenas no mês de agosto, beneficiários do Bolsa Família enviaram via Pix cerca de R\$ 3 bilhões para as empresas desse segmento. Mais preocupante do que o valor divulgado pelo Banco Central é que ele corrobora outros levantamentos que mostram que as famílias de baixa renda têm sido as mais prejudicadas pelas atividades envolvendo apostas esportivas. Não chegamos até aqui da noite pro dia. A lei que liberou as bets no Brasil foi aprovada quando Michel Temer era o presidente. Cabia ao governo que o sucedeu, o de Jair Bolsonaro, regulamentar o mercado. Não é de se estranhar, já que essa falta de regulamentação é lucrativa e interessa a muitos. Foi só no ano passado, já no governo Lula, que uma medida provisória sobre o tema foi editada e um projeto de lei passou a ser discutido no Congresso. Depois de passar pelo Senado em dezembro passado, o texto-base, votado simbolicamente, mas com dois destaques aprovados, voltou à Câmara. A aprovação se deu na última sessão do ano, com 292 votos favoráveis e 114 contrários, oriundos da oposição e de uma minoria que era contra o texto. Depois de tudo isso, no mesmo mês de agosto em que os R\$ 3 bilhões do Bolsa Família viraram lucro de alguns já milionários, o Ministério da Fazenda definiu as regras do que virá a ser o Jogo Responsável para esse mercado tão suspeito. Pesquisadores que estudam o assunto não pensam duas vezes para afirmar que o cenário atual no País é de uma epidemia de dependência em jogos. A busca por atendimento para tratar esse tipo de vício chegou a tal ponto que o Hospital das Clínicas, em São Paulo, precisou suspender os agendamentos até 2025. Isso só fez uma notícia dada pela Folha de S.Paulo soar ainda mais chocante. Analisando compromissos dos integrantes dos ministérios da Fazenda e da Saúde entre março do ano passado e 31 de julho deste ano, véspera da divulgação das regras do tal Jogo Responsável, o alto escalão da Fazenda, responsável por definir o tema, tinha se reunido 251 vezes com empresas de bets ou com as associações que as representavam. Em apenas cinco ocasiões tinham estado com profissionais da área de Saúde. Sejamos realisticamente cruéis. O Governo Federal pisa em ovos, ou pisou ao longo dessa novela, porque não consegue deixar de levar em conta o que pode faturar. E é muito. De outra forma, trataria o assunto com a rigidez e a celeridade que pede. Certamente durante o próximo jogo de futebol que você assistir, seja ele do seu time, ou de quem for, o convite em forma de propaganda para você apostar irá dar as caras. Pode não lhe fazer sentido algum, como não faz para mim. Mas se você se é do tipo que se deixa levar pelo hábito, ou pela falta de grana - que quero crer seja o grande motor por trás de tudo isso - humildemente lhe sugiro tentar o drible.