Parto de todas as risadas contidas, ou não, que a punição dada a Cristiano Ronaldo pela rebeldia de ter abandonado os treinos da seleção portuguesa na última Data Fifa provocou. Achei, ao ter ciência do ocorrido, que se tratava de uma notícia acabada. Eis que pouco depois fiquei sabendo de detalhes que tornaram o caso um tanto mais descabido. Se é que isso era possível. Não se trata, obviamente, de usar esse rompante para querer tirar um naco da fortuna do gajo que, vejo aqui, passeia ao redor de uns R\$ 8 bilhões. Ocorre que punições são para punir e não fazer para fazer rir. E não foi só a questão da bufunfa que fez a coisa soar assim tão nonsense. Tiveram o cuidado, os que julgaram o episódio, de fazer a punição de 30 dias imposta com a multa passar a vigorar a partir do dia 30 de setembro. O que, como num passe de mágica, a faria minguar antes de a seleção portuguesa voltar a campo. Fato que se dará no mês que vem, quando os portugueses enfrentarão a Dinamarca. Tendo em vista o que determina o regulamento daquela Federação, o gancho poderia ser de até seis meses. O que, convenhamos, seria descabido. Não seria o caso de decretar algo nem tanto ao céu nem tanto à terra. Mas o veredito sabemos todos só faria sentido se a punição tivesse um mínimo de castigo. O que tiveram todo o cuidado de fazer não ser o caso. Muito menos na questão monetária onde a lei dava margem para que a multa chegasse a 1 mil euros - neste momento, pouco menos de R\$ 6 mil. E o que ficamos sabendo um pouco mais tardiamente é que se ela acabou em meros 255 euros, foi porque o craque pediu - e conseguiu - reduzir as penas e a multa a menos da metade. Deve-se reconhecer que alguns argumentos eram realmente incontestáveis. Ter assumido a responsabilidade pelo caso. Os serviços prestados pelo jogador ao futebol, os títulos conquistados. A saber, um da Eurocopa há dez anos. E outro, mais minguadinho, da Liga das Nações. Já outros argumentos que lhe serviram de escudo poderiam dar margem a objeções, já que eram de cunho individual. As Bolas de Ouro, os prêmios aqui e ali. E um histórico disciplinar favorável. Que até passaria se eu conseguisse esquecer a cena do dia em que Cristiano, incomodado com uma pergunta feita pelo repórter Diogo Torres, da portuguesa CMTV, tirou repentinamente o microfone das mãos do rapaz e o atirou no lago que estava ao lado. Claro que ninguém é obrigado a ser polido o tempo todo, muito menos entender que é quase um vício dos bons repórteres insistir nas perguntas incômodas. Mesmo sem escantear a verdade de que muitos se valem dessa premissa para fuxicar a vida alheia. Seja como for, convenhamos, tratou-se de ato desabonador, desmedido. Mas sugiro, e já não é de hoje, não mirar os números que ficaram muito abaixo do que deveriam, como esse que determinou o tamanho da multa aplicada ao craque português, mas mirar em outros que, ao contrário, parecem exagerados. Os salários pagos aos boleiros por aqui, as transferências, as cifras inflando sobrenaturalmente o faturamento dos clubes nos últimos anos. O que me faz acreditar cada vez mais que estamos diante de uma grande bolha. Como vira e mexe tenho escutado aqui e ali de gente que conhece o jogo de bola pelos intestinos. Mais justificado acreditar nisso do que achar que alguém lá da terrinha queria mesmo punir Cristiano Ronaldo.