Existe uma face do jogo de bola que não pertence a todo mundo. É íntima. E a imprensa já teve recursos melhores para desvendá-la. Diria que ser bem sucedido nesse tipo de empreitada fez a fama de muito jornalista, de muito repórter por aí. Merecidamente. No ofício, é algo muito parecido como marcar um belo gol. Diria que os mais famosos casos do tipo se deram quando essa intimidade guardava detalhes que os envolvidos gostariam que jamais tivessem sido desvendados. Algo na linha do que se deu com o caso que entrou para a história como A Máfia da Apito. Um esquema de manipulação de resultados descoberto pelo Ministério Público e pela Polícia Federal através de escutas telefônicas e que na época colocou em xeque a credibilidade da arbitragem brasileira. Mas há um outro tipo de intimidade, esse nobre, que encanta o torcedor. E não é à toa. Algo na linha do que ouvi certa vez do goleiro Marcos, do Palmeiras, exímio contador de causos sobre o jogo de bola. Infelizmente, não vou lembrar detalhes da partida. Mas a alma do que se deu trago comigo. Eis que o arqueiro, diante da disputa por pênaltis que se avizinhava, ao notar que o sorteio que acabava de ter sido feito exigiria que os times mudassem de lado no campo, teve uma espécie de iluminação. Era um momento em que as paradinhas andavam muito na moda, para desespero dos goleiros. Então, ao se encaminhar para a trave que ficava do outro lado, e percebendo que iria passar perto dos jogadores adversários, o que ele fez? Se virou pra trás, como se estivesse falando só com os companheiros de time, e avisou em alto e bom tom que o árbitro tinha dito que não valia paradinha. E que se alguém usasse do artifício, ele iria mandar voltar. O que não passava de lorota. Seja como for, ninguém arriscou fazer a graça. Ele defendeu uma ou duas cobranças, já não lembro, e o Palmeiras se classificou. Em geral, essas quase confissões só se dão muito depois do ocorrido. Mas nunca perdem a graça. Intimidade é intimidade. Lembro também de ouvir Seo Macia, o Pepe, contar uma outra. Interessantíssima. De um dia em que o Santos foi enfrentar o mítico Botafogo. Nos tempos em que esse era o jogo. E alguém deu ao técnico santista a dica de que o segredo era não deixar Zagallo jogar. E o Velho Lobo não era visto como um jogador a ser temido. O que foi ouvido com certa descrença. Mas fato é que a dica foi aceita. E o Santos, com um esquema especial pra cuidar de Zagallo, desenhou pra cima do time carioca um placar de respeito. Nada como um detalhe íntimo pra encher o futebol de graça. Isso tudo me voltou porque dias atrás se deu uma situação do tipo que ficou um pouco no meio do caminho entre algo que se descobriu e algo que foi declarado. Saiu da boca do classudo meio-campista Rodri, agora jogador do Barcelona, que após ser substituído acabou flagrado pelas câmeras comentando com um colega de time que os adversários que tinham em campo eram muito ruins, muito fracos. O que me fez ficar pensando que tipo de juízo não fazem intimamente os jogadores brasileiros dos adversários ou dos times que enfrentam. Mas é tão difícil imaginar algo do tipo sendo proferido por aqui que quase me convenço de que o Brasileirão é mesmo um torneio com um nível de competitividade que não se vê em nenhum outro lugar do mundo. Incrédulo com o que tinha acabado de testemunhar, Rodri perguntou ao amigo que estava ao lado em que posição o adversário tinha terminado a temporada anterior. Ficou sabendo que tinha sido nono. E na atual andou flertando com a lanterna. Agora eu vos pergunto: dá pra imaginar um corintiano, ou um são paulino falando isso da Chapecoense?