[[legacy_image_274574]] O futebol é inocente, é bom que se diga. No fundo é vítima. Mas vejam como andam as coisas. Tenho pra mim que a lei das SAFs, instituída recentemente, além de não ter o poder de transformar o jogo em algo verdadeiramente ético do ponto de vista administrativo, serviu para mascarar o que veio a ser um novo programa de refinanciamento de dívidas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Todo mundo por aí fala dos 20% da receita que devem ser usados para quitar dívidas. O que não se fala é que deram um jeito de deixar fora disso os direitos econômicos dos jogadores. Jogada de mestre. Na verdade, deixaram lá dois modos distintos de tratar a questão. Uma excluindo, e outra os incluindo mas, detalhe, a partir do sexto ano da SAF. No meu modo cruel de interpretar, seria o mesmo que fazer negócio com um açougue e deixar de lado a venda de carne. E depois de meia década se pode muito bem mudar as regras. Prova disso é que o presidente do Senado protocolou um projeto para – notem bem a definição – atualizar a lei. A intenção é proteger as empresas das dívidas dos clubes que eles compraram. Embora se use aí também outros termos para a transação, é ou não é disso que se trata? E para que o proposto soe melhor, a proposta sugere também penalizar a empresa que não cumprir as obrigações educacionais para as categorias de base. Eu aqui, com minha notável desconfiança de tudo, lhes pergunto: algo assim tão venerável já não deveria estar previsto desde o início? A grita dos endinheirados que viram na SAF grandes oportunidades não tardaram. John Textor, o dono do Botafogo, disse com todas as letras que a lei estava quebrada. Que as decisões dos tribunais estavam atropelando o chamado Regime Centralizado de Execuções, que em tese apontaria quem deve receber. Não desconsidero a possibilidade. Mas conhecendo como o jogo costuma ser jogado, as mudanças poderiam muito bem blindar os novos donos de certas dívidas. O interessante é como tudo isso, para um leigo como eu, soa em desconexão com a realidade de modo geral. Até ocorre, seria de estranhar que não ocorresse, de uma grande empresa que compra uma outra contestar certas dívidas, mas de modo geral se compra o pacote. Incluindo, nisso tudo, todas as dores e riscos. Entre eles os de que uma decisão jurídica futura lhes faça responsáveis por situações que essas empresas não previram. Imagino que seja o tal risco embutido em toda grande transação. Fora tudo isso, impressiona ver a influência dos grandes grupos sobre nossos políticos. O curto espaço de tempo passado entre a gritaria dos interessados e a ação no Senado. Isso quando tantos outros temas infinitamente mais caros ao País, tão mais necessários à nossa população são praticamente esquecidos ou andam a passos de tartaruga. Sei que os entendimentos terão argumentos muito bons para essa minha interpretação do que anda se dando. A eles digo que só confio no futuro para fazer essa mediação. O tempo certamente nos irá revelar quanto os homens que chegam agora ao nosso futebol amparados por suas credenciais dadas pelo mercado serão mais eficazes do que os velhos cartolas, cuja obra desde sempre foi ter transformado o jogo de bola no que virou. A virtude nesse caso seria enxergar o sucesso como algo que não se resume às vitórias. Essas foram infalíveis ao fazer de dirigentes homens com ares de reis, cultuados. Mas a conta está pendurada aí pra todo mundo ver.