Neste momento o futebol brasileiro é indecifrável para grande parte dos jogadores que o fazem. Soa veemente, eu sei. Disse aqui em outro momento que a abertura para estrangeiros ter sido feita do modo que foi, fatalmente teria consequências. Mas, pelo visto, enfim, o tema provocou reflexões. Dias atrás, o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, tinha falado a respeito. Mas falado meio por tabela, porque a intenção primeira era questionar a regra que estabelece o número de jogos a partir do qual um jogador pode mudar de clube. O que estaria forçando, segundo o treinador, os clubes a ir buscar jogadores no exterior. Uma crítica que faria mais sentido se a regra não tivesse sido alterada recentemente. Até o ano passado eram permitidos seis jogos. A partir deste ano, 12. O que me deixa sempre um tanto desconfiado das intenções por trás da declaração. Seja para forçar uma possibilidade maior de o clube usar seu poderio financeiro ou driblar um pouco outros assuntos de superfície espinhosa que sempre interessam mais à imprensa do que aos entrevistados. De qualquer modo, a parte incontestável é que a velocidade como tudo foi feito será sempre discutível. Abel lembrou que, quando aqui chegou, podiam ser cinco os estrangeiros. Pouco depois, sete. E mais rápido do que isso liberaram nove. Mas na última segunda, depois de se reunir com os clubes, a CBF anunciou que o limite de estrangeiros passará a diminuir a partir do ano que vem, ao ritmo de um jogador por ano. Até voltar a ser de cinco. O que se dará em 2030. Tem sido normal ver em campo pelo Brasileirão equipes com mais de meio time formado por jogadores vindos de outras paragens. E é nesse detalhe que eu quero me apegar para interpretar o instante mais polêmico que o nosso futebol viveu nos últimos dias. A fatídica cobrança de pênalti que Memphis Depay transformou num chute inesquecível pra arquibancada. Estão certos os que andam por aí decretando que a vida dele jamais voltará a ser mesma depois disso. Estou longe de não considerar que perder, ou não, um pênalti é castigo que pode macular qualquer um que exerça o ofício. E há uma lista imensa de jogadores vitimados por esse tipo de situação. Mas costumo duvidar quando um jogador que vem de fora diz que sabe muito bem o que significa essa ou aquela rivalidade, aquele clássico. E o motivo é muito simples: na maior parte das vezes, não têm recursos para fazer esse tipo de interpretação, não têm vivência. E não têm culpa alguma disso, vejam bem. De qualquer forma, ficam prejudicados por essa impossibilidade de compreensão. Não quero com isso absolver o camisa dez corintiano por contrato. E acho que a crítica mais sensata que se pode fazer é que, para um jogador que se diz de tamanha categoria, uma cobrança daquela magnitude teria, no mínimo, que acabar no gol. Ou mais tragicamente encontrar a mão do goleiro no meio do trajeto. Que sirva de aviso, porque muitos dos que aqui se exibem, alguns já mais íntimos, correm o mesmo risco. A história que Memphis desenhou com o clube, as atitudes tomadas desde o dia em que chegou, sugerindo cumplicidade total com a nação alvinegra, essa condição que fez dele alguém com poder para subjugar o clube, podem ter se transformado em uma armadilha da qual será complicado se desvencilhar. Entender o que é o Corinthians exige uma vida. Mas só os mal intencionados não aceitarão que errar é mesmo humano. Talvez, se ele tivesse um dia conversado com o saudoso Doutor Sócrates, quem sabe teria ouvido, como ouvi certa vez, que em matéria de futebol quase sempre optar pela força é um equívoco. E aí, naquela bendita hora, pudesse ter lembrado disso.