(Imagem Ilustrativa/FreePik) A hegemonia esportiva do futebol no Brasil tem um preço alto. Condena a um segundo plano quase todas as outras modalidades. O que talvez não se revele tão perverso em países que dispensam atenção devida ao tema, que se ocuparam de tentar desenhar uma política pública para tratar do esporte. E digo isso ciente de que essa devoção não é exclusividade nossa. Como esse papo de ser o país do futebol – que tanto colou no nosso povo – nunca deixou de fazer sentido para tantos outros. Italianos, argentinos. A reflexão que quero propor passa ao largo de como se pratica o jogo. Coisa de que se ocupam tantos e quase sempre. Tem mais a ver com os valores e modos que o jogo de bola fomenta, ainda que nem sempre nitidamente percebidos. E isso sempre se fez muito claro na vida de um repórter esportivo, já que é inevitável deixar de comparar comportamentos, ambientes. Diferenças que podem ser explicadas muitas vezes por questões econômicas ou de alcance. Do contrário, bastaria comparar a arquibancada de um estádio com a de um jogo de tênis para tomar ciência do abismo que há entre elas. Sei que agem sobre isso um sem fim de fatores sociais, de formação. Não se trata de um tema fácil de desfiar. Mas, de um modo geral, existem valores que permeiam todo esse universo, ou deveriam, porque em última instância não pertencem a essa ou aquela modalidade. Disciplina, respeito. Ainda assim, com todas as diferenças que possam vir a servir de justificativa para certas condutas, sou levado a crer que um lutador de judô trata de maneira infinitamente mais respeitosa seu adversário do que um jogador de futebol. Como é raro em outros campos dar de cara com um atleta simulando descaradamente uma agressão ou lesão. Vejam, não quero que minhas palavras tomem um tom acusatório porque não se trata disso. Decidi enveredar por essa caminho porque dias atrás achei muito interessante, e segura, a contestação que o tenista Novak Djokovic fez a um repórter que, ao lhe questionar, sugeriu que ele tivesse passado a carreira, primeiro, perseguindo Federer e Nadal e, mais tarde, a Jannick Sinner e Carlos Alcaraz. Com elegância, Djoko lhe pediu para esclarecer o conceito que tinha de perseguição, pois ele achava que não era o caso. E explicou a razão. Entre um momento e outro citados, tinha passado perto de 15 anos dominando os grandes torneios do circuito mundial. O ocorrido já tinha me chamado atenção pelo tom polido em que se deu. Djoko teria motivos para torcer o nariz, afinal, diante de qualquer dúvida, bastaria o inquiridor consultar o número de títulos de Grand Slam conquistados por ele ou, simplesmente, levar em conta que se fez nisso o maior de toda a história do tênis profissional. Mas o que escancarou essa diferença entre condutas se deu dois depois depois, quando o tenista espanhol Rafael Nadal, ao conceder entrevista para uma rádio espanhola e ser questionado sobre quem teria sido o maior tenista de todos os tempos, não esperou nem a bola pingar. Disse que é Djoko e que os números não deixam dúvidas. E não tinha problema nenhum em afirmar isso. Não parou aí. Disse que nunca teve ego para dizer coisas que ele não sente. Afirmou ter a impressão de que, no adversário, a frustração dura só o tempo necessário e depois ele já está pronto para voltar a competir no mais alto nível. E, vejam, lembrou que se lesionou em muitos Grand Slams e Djoko não. Concluindo que Djoko teve um físico melhor que o dele e que isso também conta. Deixando no ar uma lição velada: a de que respeitar o esporte é coisa que também se faz preservando valores.