Ao futebol foi dado tudo. Ao longo do tempo, benesses refinanciaram e perdoaram dívidas. Terrenos públicos foram cedidos para a construção de centros de treinamentos. Isenções de impostos. O que não os impede de tentar ir sempre além. Há pouco mais de meia década o trio de ferro paulistano, formado por Corinthians, Palmeiras e São Paulo, devia aos cofres do munícipio mais de R\$ 100 milhões só de IPTU. Dívida que eles, claro, contestavam alegando que a isenção para esses espaços é amparada por lei, quando ela na verdade reza que deve ser solicitada anualmente e, importante ressaltar, pode ser negada. Donde concluo que nem se deram ao trabalho de solicitar. Os espaços em questão eram os das sedes fixas e não os dos Centros de Treinamento, onde outras questões entram na discussão e quase sempre as justificativas fazem de contrapartidas discutíveis o principal argumento para o não pagamento. Vá o cidadão comum deixar de pagar um imposto pra ver como são eficazes os meios que um governo tem de lhe complicar a vida a partir do momento em que ele deixa de honrar uma dívida dessa natureza. A coisa é seria, ou deveria. Em março deste ano a Prefeitura de São Paulo divulgou uma lista com os maiores devedores da Dívida Ativa do município. Nela o Corinthians ocupava a 37a posição com uma divida de tributos municipais de cerca de R\$ 450 milhões. Nada seria capaz de justificar esse disparate, mas digamos que, ao menos, parecer probo daria um outro verniz a esses maus pagadores. Mas eles já não têm como fazer isso. Com exceção do Palmeiras que, neste momento, destoa totalmente dos rivais, a história de Corinthians, São Paulo e Santos é de envergonhar. Na semana passada Omar Stábile, o presidente em exercício do time do Parque São Jorge, foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por apropriação indébita, e teve pedido o afastamento dele de qualquer função no clube. Fato que a história impede de ser encarado como um caso à parte. Ocorre que se ele está no cargo, foi por ter vencido uma eleição indireta, depois de o antigo presidente, Augusto Melo, ter sofrido impeachment e pouco depois ter sido expulso do clube. Desfecho que se deu também à trajetória do presidente anterior, Andrés Sanchez, um dos nomes mais emblemáticos da história recente do clube. E aquele que o sucedeu, Duílio Monteiro Alves, só não teve o mesmo destino porque quando os fatos sugeriam isso pediu o desligamento do quadro de sócios. No São Paulo, semanas atrás, envolvido em maracutaias que passavam pela exploração indevida de camarotes do Morumbi em dias de show, o presidente, Júlio Casares, investigado pela Polícia, teve no início deste mês o mesmo destino de Andrés Sanchez e de Augusto Melo. Mas contribuição maior para essa realidade lamentável do futebol paulista tem dado o Santos Futebol Clube, que viu seus últimos cinco presidentes serem expulsos do clube. Ainda que contestações jurídicas ou administrativas tenham trazido alguns de volta. Trajetória iniciada em abril de 2016, com Odílio Rodrigues e integrantes do Comitê de Gestão, e que teve seu último capítulo em outubro de 2024, com Andrés Rueda indo pelo mesmo caminho. O que me faz concluir que os clubes estão longe de merecer benesses. E se a lei, sempre ela, assim reza, que seja alterada. Nem um centavo a mais. E não me venham dizer que sem elas o futebol acaba. Ou eu conheço pouco o futebol, ou a tão falada proibição das bets está prestes a virar justificar para que o governo volte a lhes estender a mão.