(FreePik) Falamos muito dos times e pouco do futebol. No âmbito das equipes está decretado, e de certa forma legitimado pela crônica, que os inícios de temporada são um pântano marcado por tantos desafios físicos que se faz impiedoso cobrar resultados. A partir desse raciocínio, atuações pífias são relevadas em nome de um possível futuro promissor que justifique ter tratado os primeiros capítulos do ano como algo menor. Os times mais preparados, como vamos vendo, mesmo diante disso, conseguirão títulos estaduais, passando uma borracha em tudo o que se escreveu até aqui. Mas o que quero dizer é que as atuações são analisadas com lupa. Discute-se a evolução dos times, de jogadores. Mas e o futebol brasileiro em si como anda? Ele não costuma ser tema tão presente nos debates que dissecam o jogo de bola. É gritante que o faturamento dos clubes nos últimos anos deu um salto, dado na esteira de todas as gatunices que cercavam o mundo dos direitos de transmissão. O que forçou um reordenamento total, com novos valores, que se ampararam em maior oferta no número de jogos. E assim já faz um bom tempo que os times brasileiros têm jogado em média 20 partidas a mais por ano do que as principais equipes das ligas europeias. Impossível não relacionar isso com esse esgotamento, que transforma os inícios de temporada num desafio cada vez maior. Temos visto o calendário ser mexido, os estaduais perdendo datas, mas nada que redunde num abrandamento no número de jogos. Difícil crer que algo será feito nesse sentido porque seria como ver dirigentes e cartolas cortando a própria carne. Morro de curiosidade para saber quais seriam as justificativas para um joguinho meia boca se, de repente, por uma maluquice qualquer, os jogadores passassem a ter cinco dias de descanso entre uma partida e outra. É bem provável que teorias sobre a falta de ritmo viessem a nos servir de amparo. Mas se isso é um vespeiro no qual ninguém ousará tocar a mão, há outras questões que poderiam dar uma contribuição enorme para o avanço do nosso futebol. Os gramados sintéticos, por exemplo. Fica cada vez mais evidente que a existência deles tem sido um desserviço para o futebol brasileiro. Para lá dos rompantes clubísticos que contaminam as conversas a respeito e ajudam a retardar uma possível solução sobre o tema, é preciso que a entidade que rege nosso futebol tome uma atitude. Nem que seja algo com horizonte largo como se fez para tratar do fair play financeiro. Que estipulem uma data para que o futebol brasileiro possa, pelo menos neste quesito, estar em igualdade com as principais Ligas do planeta. Não creio que seja pedir muito. Se não podemos nos livrar do argumento do cansaço, que tentemos ficar a salvo do argumento dos gramados sem condição de jogo. Como difícil é acreditar que em algum momento iremos pesar a maneira como se deu a abertura do futebol brasileiro para os estrangeiros. Tema que por sinal foi abordado por Dorival Júnior, na coletiva que ele concedeu depois do jogo contra o Athletico-PR. Segundo o treinador, o preço que pagaremos por essa abertura será altíssimo. E eu não duvido que ele esteja coberto de razão. Como acertado foi ele ter dito que estamos sempre na contramão do que vem acontecendo lá fora.