Não quero maltratar o coração de quem pousa os olhos sobre estas linhas. Mas devo avisar que elas trazem dessa vez um tom mais saudosista do que o de costume. Eu sei que o mundo anda para frente. Mas é difícil acompanhar como a banda da toca quando a nova ordem nos rouba requintes. E eu tenho certeza de que vocês não precisarão exigir muito da memória para se afinar com essa minha nostalgia. Lembranças de outrora darão imensa contribuição nesse sentido. Guardanapo de pano, coisa cada vez mais rara. Viagem de avião com direito a talheres de prata. Futebol com gols de falta. Pronto, falei. É. Foi-se o tempo em que provocar uma situação favorável a uma cobrança direta para o gol fazia o protagonista da infração se sentir no segundo seguinte como um condenado. Tempos idos, em que rondavam a área jogadores do quilate de um Zico, de um Nelinho. É fato que os goleiros evoluíram. E que as barreiras também, vá lá. Ainda que o avanço delas possa ter sido colocar um sujeito deitado atrás da mesma para evitar ser surpreendido pela tentativa de algum cobrador que considere mais viável uma cobrança rasteira do que a ousadia de dar à bola trajetórias outras. Vivemos esse tempo esquisito em que ludibriar e não vencer a barreira passou a ser possibilidade muito considerada. Donde concluo que se hoje ainda sentimos um calafrio nos percorrer a espinha toda vez que damos de cara com uma situação dessas, que pode nos transformar em vencedores ou nos condenar a uma derrota, é mais por uma memória afetiva do que qualquer outra coisa. E disso não há como fugir. E que não me venham contestar. Estão aí os fatos. Peguemos o caso da seleção brasileira, onde, em teoria ao menos, deveria haver entre os elegidos gente capaz de desafiar essa pobreza ou de mitigar os efeitos da evolução de arqueiros e afins. Mas tempos atrás, mais precisamente em julho de 2024, ao marcar um gol contra a Colômbia, Raphinha colocou fim a um jejum de gols de falta no escrete nacional que estava à beira de completar meia década. Na semana passada dei de cara com um levantamento sobre os gols de falta anotados no Brasileirão nos últimos dez anos. O time que mais deu essa alegria ao torcedor foi o Atlético-MG, com 24. Mas o número, se diluído pela última década, mostra que o torcedor do Galo, mesmo nessa condição privilegiada, viu pouco mais de dois por ano. O que está longe de deixar qualquer torcedor de barriga cheia. Louvação de verdade diante do apurado merece o atacante Hulk, que contribuiu com nada menos do que a metade desse número. Foram 12 gols anotados pelo jogador que hoje defende o Fluminense. Aliás, time pelo qual outro dia, jogando contra o Athletico-PR, ele anotou um gol do tipo. Interessante notar que o segundo colocado anda atualmente às voltas com uma ameaça séria de rebaixamento. Trata-se do Grêmio, que tem 16 gols na conta. O terceiro é o Palmeiras. Enquanto o Flamengo, que não é de hoje virou sinônimo de excelência técnica, aparece com oito gols, dividindo a sétima colocação com times como o Bahia e o Corinthians. O apurado sugere que se requinte há, andam grassando os de outro tipo. Seja como for, nada irá roubar a nobreza dos guardanapos de pano, de um jantar a bordo que ofereça talheres de prata aos comensais. Muito menos a elegância dos gols de falta.