Há um detalhe que se faz o céu e o inferno de quem lida com futebol: a interpretação. Já ouviu falar, né? É coisa muito lembrada nestes dias que correm. Quando clubes, mal terminadas as pelejas, se apressam a elaborar notas oficiais com o tom de quem decide mandar alguém pra fogueira. Mas não é só sobre a arbitragem que a tal da interpretação acaba por ser determinante. Ela está em tudo, como iremos ver. Até porque a nossa maneira de enxergar o mundo, a vida, não deixa de ser uma interpretação. Tomemos como ponto de partida o árbitro que apitou o jogo de ida entre Estudiantes e Flamengo, na Argentina. Na minha opinião, ele exerceu, no limite da intolerância, o estilo muito falado daqueles que deixam o jogo correr. Estilo que pelo visto tem tudo para prosperar. E, aqui entre nós, ajudou a vitaminar a fama de alguns. Talvez o mais notório deles o ex-árbitro Leandro Vuaden, que exercendo em campo essa libertinagem interpretativa acabou por ganhar ares vanguardistas. Era elogiado por dar fluidez aos jogos. Tinha o ego massageado com o rótulo de ser um profissional ao estilo europeu. Vejo aqui, inclusive, que a inteligência artificial - essa invenção monumental que se propõe a pensar por nós, que perigo - o define como alguém que não era dado a marcar faltas excessivas ou de menor intensidade. Ora, pra mim, regras são regras. E faltas são faltas. E quando um jogador decide segurar um adversário pelo calção, a ponto de quase rasgá-lo, depois de ser driblado e ver nascer uma real possibilidade de contra-ataque, não há outra saída que não seja puni-lo com um cartão. Mas agora sabemos todos que essa não é a interpretação que faz do caso o senhor Juan Benítez. Figura tão original ao cuidar do apito. Suspeito cada vez mais que o meu romantismo é que esteja me criando tantos problemas na hora de aceitar interpretações, na hora de aceitar o que vejo, E, sendo sincero, não posso prometer que conseguirei cumprir à risca o que sugeriu o treinador rubro-negro depois da partida em questão. Disse o português Leonardo Jardim que não podemos ser românticos. Não esquento com isso, fui desde sempre um sujeito afinado com as minorias. E tem sido cada dia mais difícil encontrar gente que veja tudo de maneira parecida com a que vejo. Nesse meu modo de destilar o que testemunho, digo a vocês que Paulo Henrique Ganso é um jogador que me encanta. Honra como poucos uma camisa 10. No jogo contra o Palmeiras, no Maracanã, fez um primeiro tempo irretocável. Resolveu lances complexos com uma frieza absurda e deixou transparecer uma visão de jogo e um senso de colocação em campo dignos de aplausos. Lembro que anos atrás, convidado para participar da elaboração de um livro que teria como objetivo eleger os dez jogadores de todos os tempos do time santista, fui surpreendido por ter sido um dos únicos a colocar esse paraense entre eles. Para minha alegria, descobri ao ver a obra pronta que tinha me feito companhia na escolha o saudoso jornalista e companheiro de redação Michel Laurence, alguém cuja interpretação do futebol sempre admirei. Aliás, era um craque nisso. Tinha estrada e sensibilidade. E, longe de querer colocar rótulo em alguém, batucar estas linhas - agora percebo - me fez alimentar a crença de que o velho Laurence me acompanharia sem pestanejar nessa confissão de romantismo.