(Divulgação/Corinthians) A mobilização dos corintianos para pagar a dívida do estádio do time é um caso a ser estudado. O protocolo de intenções foi assinado na última sexta-feira. Confesso pra vocês que duvidei que ideia fosse vingar. Não pela disposição dos fieis em ajudar, mas pela complexidade da operação. Não me passou pela cabeça que uma instituição pública como a Caixa fosse aceitar se envolver com tão singular operação. Mas o desenrolar dos fatos vai me jogando na cara que não deveria duvidar. Afinal, o banco já tinha aceitado entrar no negócio do estádio, cuja arquitetura jurídica desde sempre soou estranha. Mas pensando bem, a Gaviões deve gozar de um histórico como pagador que põe no bolso a maioria absoluta dos clubes brasileiros. E ao longo da história já se mostrou capaz de grandes mobilizações. Espero que o jornalismo elucide, ainda que por tabela, os bastidores da ideia, suas minúcias. Seria muito salutar para a legitimidade da empreitada que tivesse nascido de maneira espontânea. Mas a estreita relação entre organizadas e clubes me faz crer mais em um trama do que num arroubo de paixão. O que lhe emprestaria legitimidade. E ao ser criada neste momento em que a estrondosa dívida corintiana tem andado na ordem do dia, ela ganha um quê de salvadora. Mudará um pouco o foco. Ajudará a acobertar o contra-indicado modus operandi dos dirigentes que seguem gastando como se os cofres estivessem cheios e a dívida ameaçadora não passasse de intriga de adversários e opositores. Sou do tipo que não daria um centavo para aliviar a barra de cartolas. Mas tenho curiosidade pelo andamento e pelos argumentos que as doações irão revelar. Ainda que muitos dos doadores, sem dinheiro para bancar a mensalidade de um plano de sócio, sigam alijados das arquibancadas da custosa arena. A imensa maioria verá no ato de entregar a bufunfa uma prova de paixão. E é uma possibilidade, já que ela nunca fez questão de andar de mãos dadas com a razão. Só acho que isso tudo não deve ser feito assim, para usar um termo tão antigo quanto vaquinha, de mão beijada. Os corintianos que vão colocar a mão no bolso deveriam exigir que a Gaviões se tornasse credora do clube. E futuras quitações deveriam servir para obras sociais. Seria um modo de engrandecer a torcida que ao longo da história tem se envolvido com boas causas. Outras nem tanto, é fato. Estou longe de ser um especialista no assunto, mas deve existir um modo, se não esse de nominar a Gaviões como credora, de fazer com que a doação não se encerre nela. Que se exija uma contrapartida. Não consigo entender de outra maneira. A moda pode pegar, vai saber. E daria aos clubes uma margem de manobra que, embora soe inventiva num primeiro momento, pode vir a ser danosa. Além do mais, nossos dirigentes estão longe de ser uma categoria que anda precisando de ajuda. Tudo o que eles não andam merecendo é ter moleza. O termo vaquinha traz com ele algo de sútil. Imagine se neste momento se falasse em arrecadação. Essa outra palavra possível que suscita tantas coisas. Fisco, entre elas. E se defendi aqui essas posições é porque desde meu tempo de moleque uma vaquinha ou ajudava a todos, ou ajudaria alguém que andava merecendo. E esse não é o caso dos nossos cartolas, insisto. Imagino que a essa hora alguns deles silenciosamente andam esfregando as mãos e lembrando daquela velha marchinha de Carnaval que diz: me dá um dinheiro aí.