Semana passada Vini Júnior pelo Real Madrid (foto) e Raphinha pelo Barcelona roubaram a cena no principal torneio de clubes da Europa ( Reprodução/Twitter ) Duvido que com o apelo plástico atual, com seu deserto de dribles, chapéus e gols de falta o futebol conseguisse conquistar em nossa cultura o lugar nobre que foi seu um dia. E nem vou levar em conta o processo que elegeu aptos a frequentar estádios aqueles com um certo poder aquisitivo. Temos todos nestes dias um sem fim de argumentos para mal dizer o jogo. Mas há, ao mesmo tempo, um outro viés que tenta nos convencer de que ele vai bem, obrigado. Mais nítida do que essa visão antagônica é a sensação que tenho – e que já partilhei aqui – de que a receita em prática pode desandar. E lhes digo a razão. É inocência achar que essa abertura ampla, geral e quase irrestrita aos estrangeiros não vá cobrar um preço. Ela não só está tirando o espaço de jovens talentos formados por aqui como está deixando muito claro também que influi nas oportunidades dos nem assim tão jovens. Pense, por exemplo, num atacante desses meio à moda antiga. Um centroavante, pra ser mais exato. Quantos brasileiros temos na primeira divisão brilhando nessa posição? Poucos. A maior parte deles veio de fora. E o futebol pode ter mudado, os esquemas também, mas um centroavante sempre será de grande serventia. Deyverson prova essa teoria. Por outro lado, nosso futebol cresce economicamente a olhos vistos. A qualidade do jogo não. Mas talvez nada torne essa nossa hegemonia tão visível quanto a Libertadores, e não falo dos placares dilatados que Atlético-MG e Botafogo tatuaram na pele de seus adversários na rodada de abertura das semifinais do torneio, falo do domínio que os times brasileiros construíram na última meia década. Aos olhos sul-americanos podemos parecer integrantes do grand monde da bola, mas sabemos todos que não é bem assim. Estamos a anos de luz do que pode ser considerado o jet set, pra usar uma expressão que vem lá dos anos 1950 cunhada nos Estados Unidos por um cara chamado Igor Cassini, considerado o rei das fofocas sociais naqueles tempos idos. E o termo cai muito bem, pois sabemos que é em jatinhos que os grandes astros do futebol viajam. Semana passada Vini Júnior pelo Real Madrid e Raphinha pelo Barcelona roubaram a cena no principal torneio de clubes da Europa. Brilharam tanto que um dos jornais por lá, ao dar de cara com o futebol praticado por Vini, o considerou o melhor do mundo. E àquela altura todos pareciam acreditar que ele iria ficar com a bola de Bola de Ouro. Talvez seja o caso de seguir as principais ligas do continente europeu que não se preocupam com o limite de estrangeiros mas determinam que os times tenham um certo número de atletas formados no país e, em alguns casos, nos próprios clubes. Dirão que tudo é uma questão de grana. E é, não dá pra negar. As SAFs estão aí colocando fermento nas nossas cifras. Mas o sistema em si nada tem de novo. Ninguém parece se importar. Os garotos prodígio vendidos aqui continuam rendendo espetacularmente. E eles sempre toparão o negócio porque afinal o jet set está lá. Alguém que olhe as faturas não terá dúvidas do nosso crescimento futebolístico. Mas em campo o futebol jogado está longe de espelhar a excelência que os números sugerem. A fórmula praticada neste momento deveria servir para melhorar a qualidade do jogo, mas ela me deixa cada vez mais convencido de que andamos reinando num universo muito distante do jet set. Não por falta de jatinhos.