(Freepik) Em um primeiro momento, a afirmação de que o futebol faz pouco caso da excelência técnica pode soar leviana. O que o leva a esse caminho pouco nobre é que é a grande questão. Há um sem fim de acontecimentos que deixam isso claro. Dois muito recentes podem ser tomados como exemplo. A demissão do técnico Hernán Crespo, quando o São Paulo dava a impressão de estar vivendo um momento promissor. E a troca de Filipe Luís pelo português Leonardo Jardim no comando do Flamengo. No caso rubro-negro, contribuiu para dar ares mais surreais ao ocorrido o fato de o Flamengo pouco antes ter construído uma goleada de 8 a 0 sobre o Madureira, que pode não ser um adversário intimidador, mas mesmo um leigo no assunto teria noção de que um placar dessa envergadura não se constrói sem um resquício que seja de excelência. Talvez esse discurso venha a soar meio sem pé nem cabeça pra muitos, já que vivemos em um país que fez popular aquele ditado que diz: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quase um mantra. Sem querer brigar com a realidade, ou pôr em dúvida o viés cruel do poder, diria que o ideal é que quem manda tenha juízo, já que ele é a faculdade de bem julgar e avaliar. Coisa que tanto no caso tricolor, quanto no do time carioca, o tempo vai sugerindo que não foi o que se deu. Que quem manda tenha suas preferências, também é algo a ser considerado. Mas diria que, quanto mais importante o cargo, mais ele exige que as preferências sejam deixadas de lado em nome da instituição. Tudo exige um momento certo, até impor vontades. Incompatibilidade de gênios nesses casos terá sempre um quê de canelada. E pra mim foi esse o caminho que tomou também o italiano Carlo Ancelotti ao incluir Neymar entre seus 26 preferidos. E essa não é uma reflexão sobre o jogador. É uma reflexão sobre escolhas, sobre o que priorizar. Argumentos temos de todos os tipos. Quem já não ouviu entendidos por aí professarem que goleiro é uma posição de confiança do treinador? Que o sujeito é bom de grupo. Que fulano melhora o futebol dos outros. Mas eu vos pergunto: e a excelência técnica, tão primordial para grandes conquistas, que lugar ocupa nesse universo cada vez mais mercadologicamente desenhado? O certo desapontamento que venho alimentando a respeito do treinador da seleção se alimenta muito disso. Imaginava que uma das diferenças que notaríamos no trabalho de um profissional acostumado a lidar com jogadores de tão alto nível seria uma exigência descomunal com relação à excelência técnica e física. Talvez o tempo nos mostre que ter um estrangeiro a comandar o time não muda realmente tudo. E isso é um ponto de vista que não se restringe a ter, ou não ter, Neymar no grupo. Pois a convocação, de uma maneira geral, trouxe outros nomes que sugerem que essas excelências não são exatamente prioridades. Ou que elas em última análise podem ser compensadas com uma boa dose de vivência, de experiência. Só assim para aceitar sem questionamento certos nomes que figuraram na dita lista também. Talvez o talento em estado bruto, com toda a mística que o cercou desde sempre, fosse o único argumento aceitável em alguns casos, mas um sujeito pragmático como eu sempre vai achar que o talento nunca se apresenta despido de uma considerável dose excelência física e técnica. E que é melhor encarar um amistoso de despedida mais como uma festa do que como um oráculo.