Toda vez que o futebol nos revela uma de suas faces bizarras, e são muitas, costumo sacar uma velha frase que a vida me fez cunhar sobre o jogo de bola que, acredito eu, resume bem a realidade que o cerca. A frase é: futebol, quanto mais você conhece, mais difícil fica de gostar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os que convivem mais comigo já a escutaram muitas vezes. Fiz dela um antídoto para os momentos em que essa dita paixão nos envergonha, nos obriga a pensar o quanto nossa razão precisa ser posta de lado para conseguir seguir enxergando o futebol como algo encantador e divertido. Nos últimos dias vimos as ofensas racistas novamente encenadas em arquibancadas argentinas, onde a reincidência daria margem a uma punição dessas exemplares que os homens que cuidam do futebol, pelo visto, nunca têm o interesse em praticar. Muito pelo contrário. A tática, em geral, estamos cansados de saber, quando tomam alguma atitude nesse sentido, é para pouco depois tratar de ir abrandando a pena. Transformando punições em multas. Ou acabam tomando outros caminhos tão manjados quanto. E depois de tudo o que temos visto há aí um protocolo estabelecido que começa com o gesto feito pelo árbitro apontando a situação e que, em seu desdobramento maior, retira os times de campo. Com certeza não vamos resolver a questão parando partidas por uns míseros minutos e solicitando para um jogador do time da casa ir até a beira do campo pedir que a cambada na arquibancada maneire. Algo na linha do que se deu no jogo de ida do Corinthians contra o Rosario Central, na Argentina. A sequência do roteiro tomou seu caminho protocolar. Com a Conmebol abrindo investigação para apurar o ocorrido. E estar na arquibancada sempre foi um jeito eficaz de se fazer íntimo do futebol, de conhecê-lo. E por isso arrisco dizer que mesmo com todo o avanço em matéria de comportamento – que a onda do politicamente correto veio decretar – a vivência nesse ambiente é pródiga em nos fazer desgostar do jogo. Como é um tremendo desgosto dar de cara com os números divulgados no Fórum Brasileiro de Segurança Pública de São Paulo, segundo os quais em dias de jogos as ameaças e agressões contra as mulheres chegam a crescer quase 30%. Segundo os resultados, os dias que registram os maiores aumentos são as segundas, sextas e domingos. E que os registros de lesão corporal sobem mais nos dois dias do final de semana. Mas o que achei ainda mais estarrecedor foi o aumento dos registros do tipo em mulheres na faixa dos 15 aos 29 anos, que nesse recorte chega a 44%. Era de se esperar que a onda do politicamente correto ajudasse, no mínimo, a estancar o crescimento desse tipo de violência, mas em comparação ao estudo feito anteriormente, os números cresceram. E, pasmem, houve também uma inversão com os registros de violência física superando os de ameaça. Imaginar o futebol como catalisador desse tipo de comportamento é profundamente triste. O estudo recomenda ações envolvendo clubes, Federações e torcidas para mitigar a violência contra a mulher. Decidir pela melhor estratégia pode até gerar dúvidas, só não dá pra duvidar de que o futebol insiste em fazer valer a velha máxima de que quanto mais o conhecemos mais difícil fica de gostar.