(Andy03/Pixabay) Sabe, não é do meu feitio dar traço tão pessoal a esse nosso encontro. Vira e mexe tenho umas recaídas, reconheço. Mas é que há nesse meu fazer um traço de terapia, visto que estas linhas insistentemente traçadas por vezes fazem com que o bendito que as crava no papel se conheça um tanto melhor. E isso para o bem e para o mal. Mas dessa vez é a Copa que aí está que me fez tomar esse caminho. Enfim, preciso confessar minha tendência ao amadorismo. Só pode ser isso. Não vejo outra maneira de explicar. Sei que há tanta gente que dedicou a vida a decifrar esquemas. A se fazer bom nesse ou naquele jeito de jogar. Senhores que são vistos como doutores nessa arte. As construindo ou as interpretando. Gente que, às vezes, mesmo perdendo de 7 a 1 não abandona aquele jeitão seguro e segue olhando os que não lhe adulam com ar de descaso e, mais de que tudo, de impaciência. E estou convencido disso mesmo que alguém da patente de um Ancelotti tenha se definido como um sujeito que não é nem 100% tonto, nem 100% gênio. Ainda assim, continuo a achar que nem passa pela cabeça de qualquer um deles aceitar esse meu modo de ver o futebol. Ainda que no caso do italiano, depois de ter visto o que vi, eu seja levado a crer que a parte da afirmação que versa sobre não se tratar de um gênio soe mais precisa. Mas pode ser só um efeito colateral das escolhas dele que parecem ter contribuído para semear uma certa depressão futebolística em muitos dos meus amigos. E não se impacientem, vocês vão logo entender onde quero chegar. É que ao ver partidas como vi a Colômbia e o México fazerem, acabo convencido de que uma dose considerável da mais pura entrega talvez nos fizesse viver algumas alegrias e, a partir delas, sabe como é, poderíamos ganhar confiança e aí o céu seria o limite, ou por um infortúnio qualquer talvez o limite viesse a ser a França de Mbappé e sua turma. E que turma. Mas seria um final digno. Não haveria do que reclamar. Acho que nos termos atuais a isso se dá o nome de intensidade. Pois toda vez que dou de cara com uma peleja descrita pelo narrador como de altíssima intensidade está lá um time desses que, como dizia meu tio mais sabedor das coisas, coloca o coração na ponta da chuteira. Um time para o qual não há bola perdida, que não deixa o adversário respirar, que dá um jeito de ter pulmão pra maior parte do tempo ir marcar o outro time lá no campo dele. Tudo bem, o México e a Colômbia ficaram pelo caminho, mas com a postura de quem sabe que tem um nome a zelar. Sem contar que encontraram pelo caminho um time inglês e um suíço que não se furtaram a encarar o jogo da mesma forma. A Colômbia me empolgou de tal modo que já imaginava vê-la diante dos atuais campeões do mundo. E se mostrasse em campo a disposição que tinha tido diante de Portugal, nada me tirava da cabeça que daria aos seus torcedores, mesmo eliminada como acabou sendo, um tipo de dor da qual eles poderiam quase se orgulhar. Não que eu ache que nossos jogadores sejam incapazes de tomar pra si tal tarefa. São dados a fazer coisas mais difíceis. Brilhar na Premier League, serem artilheiros por lá. Serem vistos como estrelas pelas quais muitos se mostram dispostos a pagar dezenas e dezenas de milhões de euros. Vocês não fazem ideia de como essa minha crença num certo amadorismo me maltrata. Não entrem nessa, acho que deve ser bem menos sofrido se sentir um tanto derrotado achando que o talento de Casemiro, Paquetá e Raphinha e Neymar uma hora dessas iria nos fazer voltar a conquistar o mundo.