(FreePik) Eles são um caso à parte no futebol. A singularidade que lhes pesa é óbvia. Basta que uma bola tome o caminho da meta e acabe nas mãos de um deles para que se faça explícita essa sua condição. Em qualquer outra situação, tocar a mão na bola redundaria em punição. Não sou capaz de dizer se a admiração nasceu dessa realidade ao avesso que vivem, ou de uma certa cumplicidade por ter gasto uma boa fatia do tempo que passei em campos por aí aceitando o papel de arqueiro. Quem jogou bola sabe muito bem o quanto vale alguém que se dispõe a isso. Cansei de ver peladas perderem parte da graça porque não havia no lugar um bendito com disposição para encarar a parada. E quando havia um, não bastava, claro, eram necessários dois desses tipos destemidos. Os famosos gols caixote, não nos enganemos, nunca foram uma opção. Sempre foram a prova maior de que os goleiros são raros. E pelo que ouço, seguem sendo. Tá aí algo que o tempo não mudou. E jogar com gol grande, como diziam, tem um quê de requinte. Era e continua sendo outra experiência. Tem mais, uma coisa é fazer a bola cruzar a linha do gol vencendo o jogador mais recuado do time adversário. Outra bem diferente é fazer isso levando a melhor sobre um goleiro. Aposto que vocês já ouviram por aí alguém dizer, quando um deles é castigado com uma bola dessas que se encaixam com precisão entre a trave e o travessão – dessas que o goleiro mesmo pulando jamais iria alcançar –, que ainda assim ele fez o gol ficar mais bonito. Acho que é bem por aí, mesmo quando vazado, um arqueiro com estilo embeleza o lance. Torna mais evidente a finesse da jogada. E faz isso mesmo que o castigo venha em forma de drible. Haverá sempre esse universo a separar o mandar a bola pra rede com o gol escancarado ou passando pelo defensor da meta. Percebam. O reconhecimento do árbitro, por exemplo, como alguém que aceita passar pelo que passa por vontade própria é sempre lembrado, sempre tido como algo difícil de compreender. Acho que do goleiro deveria se dizer o mesmo. E mais. A indulgência que é dada aos centroavantes nunca lhes é ofertada. Dos atacantes se costuma perdoar até jejuns de gols que duram uma quase eternidade. E quando voltam a marcar, dão a impressão de estarem, vejam só, totalmente redimidos. Já com os abnegados que abraçaram a causa da meta, a rigidez das críticas é algo que não se dribla. Muito pelo contrário. Não é raro vermos um deles se esticar e mandar a bola pro lado e na sequência ouvir alguém ao seu lado afirmar, em tom impiedoso, que aquela bola dava pra segurar. Ou que aquela outra não podia ter sido rebatida pra dentro da área. Há um céu e um inferno escondidos nos 90 minutos que só pertencem aos goleiros. A eles, e um tanto aos zagueiros, não se exige menos do que uma infinita precisão. Uma bola entre as pernas anulará o brilho de dezenas de defesas impecáveis, mesmo aquelas inacreditáveis, que os narradores mais entusiasmados teimam em classificar como milagres. Diante de tudo isso, vejo em Fábio, do Fluminense, do alto de seus quarenta e muitos anos, um jogador injustiçado. Baita goleiro. E que diga sobre esse fardo Léo Jardim, o arqueiro do Vasco. Maldito quando o cruzmaltino caiu diante do Santos outro dia, maldito quando o time dele depois foi goleado pelo Palmeiras. Exaltado três dias depois quando o time dele venceu o Vitória em São Januário. Ou Santos, o arqueiro do Athletico-PR, vitimado por essa sina no jogo contra o Fluminense no final de semana. Por essas e outras creio que qualquer goleiro, ao aceitar a vocação, aceitou sem perceber também o castigo que invariavelmente recai sobre os que ousam assumir essa posição singular.