(Rafael Ribeiro/CBF) Eis que podemos, enfim, nos sentir banhados por ares futuros. Uma vez que a grande questão que parecia cercar o futebol brasileiro ficou para trás. Aos que podem ser driblados por meias palavras, que não fiquem dúvidas: sabemos agora que Neymar está entre os 26 preferidos de Carlo Ancelotti, que inevitavelmente nos últimos dias andou frequentando manchetes com uma assiduidade só comparável a dos tempos em que ele próprio se fez a grande questão. Vocês devem lembrar que eu brincava com os amigos de ofício dizendo que só acreditaria na contratação quando visse o italiano vestindo o agasalho da seleção com seus infinitos patrocínios dando treino na Granja Comary. E pensar que nos dias que virão isso será coisa abundante. Trivial mesmo. Mas agora que o treinador já soa tão nosso, que confessa andar disfarçado nas caminhadas que faz pela orla carioca, que já sentiu a vibe dos camarotes chiques do Carnaval, e não digo do Carnaval simplesmente porque acho que vai uma distância aí entre uma coisa e outra, gostaria de saber como ele viu o modo como a crônica esportiva tratou o principal nome do futebol brasileiro nos últimos tempos. Pode ter achado exagerada toda a importância dada a uma questão a que ele desde o começo emprestou tons pragmáticos, dizendo que podia ser resolvida com uma fria análise até mais física do que técnica, mas que nos momentos finais admitiu não ser uma decisão tão simples. Sou capaz de levar em consideração que Ancelotti tenha maturidade e poder suficientes para não se deixar influenciar. Ainda que a decisão dê a impressão de ter ido no sentido contrário. Só não sou capaz de acreditar que ele possa ter ficado indiferente ao burburinho em que o tema se transformou. Uma celeuma que soou desproporcional e destemperada mesmo em se tratando de um jogador que se fez em dado momento a mais cara transação da história do futebol. Com humildade, admito que Carlo Ancelotti tem recursos infinitamente maiores do que os meus – e da maioria absoluta dos que se pronunciaram – para decidir o caso. Mas neste instante a dúvida que paira agora sobre ele é a que paira não é de hoje sobre o futebol. Até que ponto os interesses podem ter peso maior do que o talento, do que a capacidade de jogar bola, em momentos como esse que aguardamos com tamanha expectativa? Fato é que a página está virada e Ancelotti deve desfrutar da melhor forma possível a condição de alguém que chegou com grande amparo. Pode parecer distante de ter desenhado um time até este momento capaz de inspirar confiança. Mas já ficou claro que se há um descontentamento com ele, nasce mais da maneira meio tacanha que alguns ditos professores têm de encarar o futebol. Como é fato que diante da falta de brilho que temos visto em mais de duas décadas, e que o último ciclo parece ter tornado tão evidente, uma certa descrença no título é inevitável. A mesma descrença que, se acabar em taça, batizará Ancelotti menos como um milagreiro e mais como um profissional de cuja excelência não se deve duvidar. E se isso vier a acontecer, as escolhas soarão certas como só um triunfo dessa ordem possibilita. E quanto a Neymar, a quem o futebol deu muito, que faça por merecer.