A novela envolvendo o treinador Jorge Jesus e o astro maior da seleção portuguesa, Cristiano Ronaldo, é dessas coisas que intrigam quem vive de levar adiante a tarefa de tentar decifrar um tiquinho o mundo da bola. E segue dando pano para manga. Ter deixado o gajo aquecendo por 30 minutos e não tê-lo colocado em campo acabou por ser a gota d’água. Cristiano abandonou os treinos. Mandou preparar seu avião. E as cenas que se deram depois falavam, inclusive, do presidente da Federação Portuguesa e do próprio Jesus tentando convencê-lo a reconsiderar a decisão a caminho do aeroporto. É ou não é uma cena com ares de novela? Não que tenha se dado exatamente assim, mas assim foi pintada. Figuras de grande estatura do métier não deixaram nem a bola pingar para dizer que aquilo não era jeito de tratar o craque. Entoaram esse coro gente do quilate de Thierry Henry e Ibrahimovic. Sem contar que o treinador, com a história ainda fresca, precisou engolir Hojlund, o camisa 9 da Dinamarca, comemorar um dos gols na partida contra Portugal como Cristiano e, depois do apito final, ver a intenção de um cumprimento ser repudiada pelo adversário, que as notícias fizeram questão de descrever como um fã declarado do português. Do jogador, não do técnico, claro. Parto daí para embaralhar a análise. Teria o dinamarquês misturado alhos com bugalhos e, emotivo, tomado decisão errada? Talvez no fundo até seria capaz de entender que a essa altura, para lá dos 40 anos, Cristiano seja um craque mais de passado do que de futuro. Mas também fico pensando se não teria visto no momento a oportunidade de virar notícia. Tática tão em voga. Tenho reservas sobre o comportamento de Jorge Jesus, que saiu muito mal do Flamengo e, depois disso, vira e mexe foi visto em manchetes de teor parecido. Mesmo como treinador, se não lhe tiro os méritos, também não durmo no barulho. O que alcançou depois de comandar o Flamengo esteve longe de ter o peso que o futebol brasileiro lhe emprestou. E se muitas vezes a escolha de um jogador é criticada por priorizar mais a grana do que o desafio técnico, como foi dito de Neymar muitas vezes, para Jorge Jesus a critica também serve. Mas o que me intriga para valer é um outro aspecto. Pensar que, tivesse Jesus facilitado um pouco as coisas, teria sido ele a dirigir a seleção brasileira neste momento – e na Copa –, e não Carlo Ancelotti. E isso é um detalhe interessante porque, apesar das coisas terem se dado nessa ordem, Ancelotti nunca foi chamado de plano B. E nem o melhor dos currículos deveria servir como antídoto contra essa verdade. Apesar de todo o respeito que a trajetória de Ancelotti invoca. Jorge Jesus, que por hora segue bem amparado, já que os resultados têm vindo, pelo visto não pensa duas vezes para mostrar que, uma vez no cargo, quem manda é ele. E há um sem fim de histórias que se deram na Gávea para fortalecer essa impressão. No time mando eu, como disse Jesus, é algo que as escolhas e as atitudes de Carlo Ancelotti nunca deixaram transparecer. Até aqui, uma vocação para a gestão e para acomodar interesses parece ter se tornado a grande marca do treinador italiano. Coisa que, sabemos todos, anda cobrando dele um preço caro demais. Jorge Jesus pode não ter sido polido e, vá lá, talvez nem mesmo justo. Mas com uma das melhores gerações do futebol português nas mãos e com a chance de mostrar ao mundo que pode bem mais do que fez com o time rubro-negro, tratou de tomar as rédeas do negócio. Parece ter se livrado do peso de gerenciar o futebol imenso e a vaidade idem de Cristiano Ronaldo, mas poderá ter como adversário todos aqueles que acham que o modo como tratou a questão acabou por atropelar o que manda a etiqueta da bola. Ai Jesus!