Sou de um tempo em que os números no futebol tinham outro peso. Não que não balizassem as manchetes. Mas o nome do jogador, sua história, soavam como mais notícia do que o valor que eles iriam custar. E se tem uma coisa que mudou no futebol foram os números. Faz uns dias dei de cara com as cifras que o futebol mundial tinha acabado de movimentar na última janela, que nem estava totalmente fechada, é bom que se diga. Havia muita gente esfregando as mãos por esse mundão afora e ainda eram mais de 600 as transações a serem concretizadas. Até ali tinham sido pouco mais de R\$ 50 bilhões. O número era anunciado como um novo recorde na história do futebol. Mas meu espanto arrefeceu um tanto quando vi que a marca tinha superado a anterior por meros 1,5%. Esperava mais porque acabamos de sair de uma Copa do Mundo. E tá pra ser inventada vitrine maior pra esse tipo de negócio do que ela. O leitor mais atento dirá: mas esse por cento e meio é uma fortuna. Sem dúvida é. Infinitamente mais do que a maioria de nós ganhará trabalhando toda uma vida. E mesmo se juntássemos os nossos cofrinhos ainda assim seguiria sendo. Apesar da robustez das faturas, o Brasil andou na contramão. Os negócios nesse meio de ano ficaram muito abaixo dos registrados no ano passado, quando entre chegadas e partidas o superávit foi além de R\$ 1 bilhão. Quando se trata desse universo, quatro dos cinco maiores compradores – Inglaterra, França, Espanha e Portugal – compuseram também o top cinco dos maiores vendedores. A exceção foi a Alemanha, que no quesito “entrega” deu lugar ao Brasil. Não deixando dúvidas sobre a nossa incontestável vocação para entregar riquezas. No dia a dia do ofício faço o possível para não cair nessa teia dos números. São de complicada apuração. Em geral aparecem servindo a interesses. E como sou um sujeito desconfiado, considero-me um ateu no que diz respeito à precisão dos balanços. E até que as transações apareçam lá, todo mundo já perdeu o interesse em se certificar se foram eternizadas com o mesmo tamanho que andaram frequentando manchetes. E mais, sempre fui assombrado por uma imagem: a de um negociador inescrupuloso, com um charuto a pender do canto da boca, ouvindo com ar cínico todos os números que a crônica anda vomitando sem desconfiar que isso só evidencia aos mal intencionados o tamanho da imprecisão dela. Nunca vi um jogador, ou agente, contestar números anunciados. Talvez alimentando aquela lógica de que é melhor deixar que os outros pensem que eles andaram ganhando mais que ganharam. Ou, ao invés disso, deixar os outros pensando que eles ganharam menos do que na verdade ganharam. Se alguém se lembra de algum jogador que tenha dito algum dia que ganhava mais ou menos do que andavam falando, me contem quando foi. Pois se vi algo do tipo, minha memória apagou. Ela, às vezes, é seletiva é fato. Números são um perigo. Mas, falando neles, se tem uma coisa que tenho ouvido soar nos bastidores, não é de hoje, é que há uma bolha imensa ameaçando o mercado do futebol brasileiro. Só que números sempre são relativos. De outro modo ousaria dizer que acho um absurdo que uma proposta de SAF pro Santos em valores totais ronde a casa dos R\$ 2 bilhões. Como pode um clube com essa história valer pouco mais de dois Enzo Fernández? O argentino que nesta janela de transações foi o mais caro. Custou ao Manchester City, que lhe tirou do Chelsea, pouco mais de R\$ 871 milhões. Caneladas matemáticas à parte, a impressão que fico é de que argentinos andam fazendo negócio bem melhor do que brasileiros.