[[legacy_image_255380]] Aos que costumam dar de cara aqui toda semana com artigos versando sobre coisas ligadas ao futebol, peço que não fiquem desapontados. Afinal, o que trago não tem nada a ver com o jogo de bola, mas tem muito a ver com a cidade de Santos, e não só com ela. Faz tempo que o pioneirismo dos que se aventuraram a surfar por estas bandas deixou de ser novidade. Figuras como Osmar Gonçalves, Jua Haffers e Silvio Manzoni já foram e têm sido exaltadas ao longo do tempo - com muita justiça - pelo papel que tiveram no início do surfe em nosso País. Não, não pensem que iria cometer a heresia de não citar o norte-americano radicado em Santos Thomas Rittscher, reconhecido como o primeiro a construir uma prancha por aqui e, muito importante, deslizar sobre as ondas que nasciam no Boqueirão. Já li que Rittscher acabaria um tanto prejudicado nesse reconhecimento por ser alguém que gostava de praticar várias modalidades esportivas, o que acabou por dificultar essa, digamos, identificação dele com o surfe. Seja como for, a história exige metodologia, e nela o que vem primeiro tem a preferência. Rittscher era mais velho do que Osmar e sua turma e pelo que se sabe o primeiro a construir uma prancha e fazer uso dela como dito acima. Uma matéria publicada há mais de 20 anos credita a Diniz Iozzi, pesquisador do assunto, a nobre contribuição de ter apontado Rittscher como o verdadeiro pioneiro. Teria sido ele que em 1937 recebeu das mãos do pai, um próspero comerciante de café, um exemplar da revista, também norte-americana, chamada Popular Mechanics. Na edição recebida, uma das lendas do surfe mundial ensinava os leitores a fazer uma prancha como a que levava a marca pessoal dele. Foi o que Rittscher fez. Encantados com o que viram se desencadear sobre as ondas do Boqueirão, Jua, que conhecia Rittscher, não pensou duas vezes para pedir a revista emprestada. E com ela em mãos, e acompanhado dos amigos Osmar e Silvio, tratou de dar um jeito de fazer uma prancha igual a que tinham visto. Como eram mais novos e menos experientes, acabaram pedindo ajuda a um engenheiro naval amigo de Jua. Assim nasceriam novas pranchas e a história do surfe no Brasil se sedimentaria. Eis que dias atrás, num início de madrugada, eu acompanhava num canal de TV a cabo um programa sobre surfe na Espanha. A série gira em torno de um surfista que percorre de bicicleta algumas das melhores praias daquele país mostrando lugares e pessoas que tiveram papel fundamental no desenvolvimento da modalidade. Em determinado momento, ele se coloca à frente de dois senhores que tinham sido, como Rittschers e seus amigos, pioneiros da modalidade na região da Cantábria. A conversa vai emendando um sem fim de memórias e vem a pergunta chave: como é que vocês conseguiram as primeiras pranchas? E aí, um deles que já tinha contado algumas histórias, diz que a primeira mesmo tinha sido fabricada depois de lhe ter chegado às mãos um exemplar da revista Popular Mechanics. Vejam só. Os dois entrevistados também tinham em comum com Rittschers, na época atleta do Saldanha da Gama, a prática do remo. Achei incrível que em pontos tão distantes do planeta a história tenha se desenhado de maneira tão parecida. Soou a mim como algo digno de registro.