Sempre admirei aqueles amigos que têm um olhar mais doce. As pessoas que, na correria da vida, obrigam todos a funcionar como máquinas conseguem não apenas olhar, mas enxergar a beleza nas frestas, nos vãos. É como a florzinha que se encaixa entre as pedras para brotar. São duas obras com esse tipo de delicadeza que apresento hoje. Talvez seja a chegada de maio que me faz pensar sempre no amor. Mês mães, das noivas... Escolhi falar sobre delicadezas. Gosto muito de histórias que dizem sem palavras, portanto, nos fazem primeiro sentir, estranhar e, depois, perceber que estava tudo ali, lido pelos olhos de ver do coração e não pelo olhos da razão, da mente. Assim é O Nome do Moço, da paulistana Márcia Leite, com ilustrações da mineira Bruna Lubambo. O texto traz o olhar da criança sobre a cidade grande, enquanto a mãe corre pela vida. As imagens nos mostram para onde vai o olhar da criança naquela correria do início de mais um dia. Também tenho a imagem que mora no fechar dos meus olhos, quando minha criança viu pela primeira vez uma pessoa em situação de rua. Mais tarde, soube que meu avô esteve nesse lugar. Era, sem dúvida, uma difícil memória para minha mãe. Que tentou, quando adulta, ajudar, mas não conseguiu. Era um dos vazios que ela tinha no coração. O Nome do Moço, publicado pela Joaquina Editora, é muito sensível, excelente para nos fazer refletir, porque tanta gente tem aversão a pessoas em situação de rua. Pessoas que nunca conversaram com alguém nessa condição, mas que as veem com muito preconceito. Talvez por aporofobia (medo ou desprezo por pessoas pobres) ou porque cresceram ouvindo que o homem do saco ia pegar a criança que fosse pra rua. A verdade é que muitos, em algum momento, ficaram sem casa e sem família, além dos que têm problemas com a saúde mental ou tiveram uma grande perda, como morte na família, separação ou desemprego. A maioria não cometeu sequer um delito, mas termina, sim, usando álcool e entorpecentes para se esconder da dor, da fome, do frio e da indiferença. De qual maneira, como somos humanos e estamos aqui para nos ajudar, fica a dica de olharmos para essas pessoas com os ‘olhos’ do coração. A empatia pode ser uma dessas delicadezas que a vida nos brinda. Outra obra da Joaquina Editora, com coordenação editorial de Márcia Leite, é Primavera, com texto de Carolina Moreira e ilustrações de Odilon Moraes. Ambos profissionais premiados. No enredo, vemos a bisa que gosta de borboletas e as crianças que gostam de brincar com as lagartas. A óbvia transformação da lagarta em borboleta é apenas o pano de fundo do ciclo da vida. Odilon Moraes é mestre em contar outras histórias com suas imagens. Nesse cenário primaveril, vemos as estações do ano acontecendo também para marcar o ritmo da vida dos personagens. Uma obra delicada e repleta de vazios para serem preenchidos com os olhos do coração e com estações em ritmos diferentes para crianças, adultos e idosos. Desejo que O Nome do Moço e Primavera floresçam no seu coração. Serviço: O Nome do Moço, da autora Márcia Leite, com ilustrações de Bruna Lubambo, da Editora Joaquina, por R\$ 67,50; Primavera, da autora Carolina Moreira, com ilustrações de Odilon Moraes, da Editora Joaquina, por R\$ 67,00. *Jornalista e escritora vanessaratton@gmail.com