Os Kaingang são um dos maiores povos indígenas do Brasil, representando mais de 30 mil pessoas (Reprodução) Uma das obras que trago nesta terça-feira (23) na coluna é de uma escritora kaingang e mostra a diversidade das culturas indígenas. Mas, antes de falar do livro, quero apresentar um pouco dessa etnia. Os Kaingang são um dos maiores povos indígenas do Brasil, representando mais de 30 mil pessoas distribuídas pelas regiões Sudeste e Sul. Toda a vida social e as relações de parentesco desse povo são divididas em duas metades: Kamé e Kairu. Essa organização está baseada na observação da natureza — animais, plantas e fenômenos — que, em sua cosmovisão, também se divide em duas partes. Os kaingang acreditam que vieram do interior da terra após um grande dilúvio. O mito conta que dois irmãos brigaram e, quando se reconciliaram, transformaram-se no Sol (Kamé) e na Lua (Kairu). Cada um criou seu grupo, bem como sua fauna e flora. Segundo a tradição, um Kamé deve se casar com um Kairu, pois são complementares. Os filhos seguem o clã do pai. Nos grafismos e artesanatos, um grupo se representa por meio de traços longos e o outro por traços curtos, fechados ou em círculos. Eles falam a língua kaingang, pertencente ao tronco Macro-Jê. Na obra Aprendendo a Tecer, de Rejane Paféj Kanhgág, com ilustrações de Kuríporã Ikujú, publicada pela editora Casa da Lara, conhecemos a história de Kafág (pronuncia-se Kafã), que pertence à família Kamé. O jovem tem 12 anos e chegou a hora de demonstrar suas habilidades no trançado, um conhecimento ancestral. Ele conta que suas mãos e seus pés são raízes que se conectam com a terra. Assim, vamos conhecendo um pouco da rotina do pequeno indígena e acompanhando como ele entra respeitosamente na mata para cumprir esse importante ritual de crescimento. No meio da floresta, Kafág encontra a parenta Sukrîg, a grande aranha da sabedoria, e pede para aprender com ela o dom das mais belas tranças, admirando sua teia. Para isso, o menino precisa fazer um juramento de proteção à floresta e a todos os seres que nela vivem. Filha da floresta, Rejane é kaingang, psicóloga, mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS e doutoranda em Antropologia. Moradora da aldeia Sede Nonai, no Rio Grande do Sul, ela narra essa história com muita sensibilidade. Já o ilustrador Kuríporã Ikujú, de ascendência kaingang e guarani, é bacharel em Design de Jogos e técnico em animação 2D. Também é criador das tirinhas de Pyá, um curioso menino indígena que explora o mundo transformando o ordinário em extraordinário. Recomendo sempre trazer para as crianças obras literárias de escritores e escritoras de diferentes etnias, para que possamos conhecer a grande diversidade dos povos indígenas do Brasil, formada por cerca de 391 etnias e mais de 295 línguas. Serviço: Aprendendo a Tecer da autora Rejane Paféj Kanhgág com ilustrações de Kuríporã Ikujú. Editora Casa da Lara, 32 páginas e R\$ 69,00. À venda no site da editora: www.casadalara.lojaintegrada.com.br