(APS/ Divulgação) Há uma mudança estrutural em curso no setor portuário global que vai além da expansão de capacidade e da modernização de ativos físicos. A competitividade dos portos passa, cada vez mais, por como eles se preparam para atender às exigências de uma nova matriz energética da navegação, baseada em combustíveis de menor emissão e na infraestrutura necessária para viabilizá-los. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O debate ganhou contornos práticos: quais combustíveis sustentarão a navegação nos próximos anos e como os portos vão suprir essa demanda? Amônia, hidrogênio verde, metanol, biocombustíveis avançados, gás natural em fase de transição e eletrificação parcial via shore power compõem hoje o conjunto de alternativas em análise. Nenhuma é solução única ou simples. A escolha, ou combinação, desses combustíveis definirá investimentos, desenho de terminais, padrões de segurança e novos modelos de governança portuária. Essa agenda se impõe em um momento de forte crescimento do setor. Em 2025, os portos brasileiros movimentaram 1,4 bilhão de toneladas, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Paralelamente, o País vive um ciclo robusto de investimentos em novos arrendamentos e expansão de capacidade, o que amplia a responsabilidade de planejar desde já uma infraestrutura compatível com as exigências energéticas do futuro. A inflexão decisiva vem do ambiente internacional. Em abril de 2025, a Organização Marítima Internacional (IMO) aprovou o IMO Net Zero Framework, que combina padrões obrigatórios de combustíveis e um mecanismo global de precificação de emissões, com vigência prevista a partir de 2027. As regras alcançam navios acima de 5.000 GT, responsáveis por cerca de 85% das emissões do transporte marítimo internacional. A sinalização é clara: a matriz energética e os combustíveis passam a influenciar diretamente custos, compliance e decisões de rotas. A nova matriz energética portuária não se traduz em uma única tecnologia, mas em um portfólio integrado de soluções. Inclui eficiência e eletrificação das operações em terra e, de forma crescente, a adaptação dos portos para armazenar, manusear e abastecer novos combustíveis marítimos. Tanques dedicados, dutos, áreas segregadas, padrões de segurança, licenciamento ambiental e integração com cadeias produtivas regionais tornam-se elementos centrais do planejamento. O shore power ilustra bem essa complexidade: reduz emissões locais e ruído, mas exige redes robustas, custo competitivo, padronização tecnológica e coordenação entre autoridades portuárias, operadores, armadores e concessionárias. Ao mesmo tempo, não substitui o debate sobre quais combustíveis sustentarão a navegação de longo curso e como prover esse abastecimento com escala e segurança. Surge, então, o dilema central: adaptar portos ou aguardar a consolidação das escolhas dos armadores? A experiência internacional mostra que movimentos isolados geram ineficiências. As transições mais eficazes combinam projetos-piloto, corredores verdes e governança compartilhada, alinhando decisões públicas e privadas. No Brasil, a agenda já entrou no radar das políticas públicas. Programas voltados à descarbonização reconhecem que a infraestrutura de combustíveis e a matriz energética são eixos estruturantes da competitividade logística. O avanço real, porém, dependerá menos de anúncios e mais de diagnósticos técnicos, critérios claros e decisões orientadas por dados. No fim, a pergunta para 2026 não é se a matriz energética portuária vai mudar, mas quais portos estarão preparados para oferecer, de forma segura e competitiva, os combustíveis que a navegação vai demandar. O porto do futuro não será apenas o mais eficiente na movimentação de cargas, mas aquele capaz de transformar a transição energética em vantagem concreta para a cadeia marítima e para o País.