[[legacy_image_311512]] Faz muito tempo. Aconteceu no Cemitério da Filosofia, mais conhecido como Cemitério do Saboó, por causa do bairro e do morro. Na época, os muros do campo santo não estavam protegidos pelos anéis de arame farpado que ostentam hoje. Por isso, era fácil para violadores de túmulos escalar o muro e recolher nas campas tudo que pudesse ser vendido. A escuridão da madrugada favorecia sua tarefa revoltante. O desprezo pelo trabalho honesto e o culto da malandragem completavam a obra nefasta. Uma noite, voltando de uma festa que invadira a madrugada, um casal de namorados viu três homens escalando o muro do fundo do cemitério. Não foi difícil concluir que eles não participavam de nenhuma nobre ação. Muito pelo contrário. Como acontece nas comunidades pequenas, a notícia logo se espalhou pelo bairro, causando revolta geral. A primeira reação foi contar à polícia. Porém, dois moradores mais criativos arquitetaram um outro plano. Com o apoio do porteiro madrugador, apareceram com lençóis e velas. O objetivo era pregar um susto aterrador nos assaltantes. Caminharam em silêncio até o centro do cemitério, abriram os lençóis e acenderam velas sob eles. Ao mesmo tempo, começaram a lançar gritos variados e ensurdecedores, supostamente imitando almas penadas. Apavorados, os criminosos fugiram esbaforidos, procurando chegar aos muros com a maior urgência. No seu desespero gritavam: “Fantasmas! Fantasmas!” Dois tiveram êxito na corrida maluca. Mas um terceiro, na ânsia de escapar dos gritos ensandecidos, tropeçou e caiu em um túmulo aberto cheio de lama. E um esqueleto à mostra. Ao levantar, com dificuldade, percebeu espantado que o conjunto de ossos o abraçava. Fez um gesto brusco e firme para se livrar dele. Encontrou resistência. A cena parecia, pelo seu inusitado, alguém descarnado e encantado pelo amor à primeira vista. Amanhecia pouco a pouco. Homens saíam para o trabalho. Mulheres para a feira. E crianças para a escola. O desajeitado meliante retardatário, perseguido por sua triste sina, seguia a passos lentos rumo à sua casa. Pelo caminho, provocava olhares de espanto. Ao seu lado, muitas crianças o acompanhavam, formando um cortejo. E riam. Riam muito. O esqueleto amoroso fazia sucesso entre todos. O susto valeu, A notícia correu célere por toda a cidade, incluindo os variados núcleos dos fora da lei. Por um bom tempo, o cemitério não foi mais invadido. O episódio virou lenda. Os mais crédulos acreditavam piamente que os autores da ideia original eram realmente fantasmas. A morada derradeira dos mortos ganhou mais uma atração. Antes, ansiando por milagres, os peregrinos procuravam o túmulo da beata Maria Fea, assassinada brutalmente por um marido cruel. Agora iam em busca do local exato onde, segundo os porteiros, humanos se materializaram em fantasmas. Os dois moradores ouviam todas as histórias e se divertiam. Jamais se esforçaram para desmentir a versão corrente. Um deles comentou com o outro: “Deixa o povo se distrair. Afinal, a lenda é sempre mais forte que a realidade”.