[[legacy_image_338585]] Na noite de 18 de fevereiro, teve início um grande incêndio que atingiu um armazém no Bairro Paquetá, na região central de Santos. O incidente vem sendo reportado nos principais jornais da cidade e até do País, mencionando a quantidade de fumaça gerada e a perda das mercadorias que ali eram armazenadas pela Receita Federal, locatária do armazém de propriedade da empresa Dínamo Inter-Agrícola. Ainda digerindo as imagens que circulam nos jornais, sinto a necessidade de compartilhar algumas informações que possuo sobre o edifício atingido por esse incêndio. Tenho fresco na memória o ano de 2010 e o caminho diário do trabalho para casa passando pela recém-inaugurada Avenida Perimetral, na área portuária. Observando a vista do Centro de Santos do alto de um viaduto, o edifício deste armazém chamou a minha atenção e despertou a minha curiosidade. A busca por respostas resultou em uma pesquisa iniciada ainda na graduação de Arquitetura e Urbanismo da UniSantos e que se estendeu a um mestrado concluído no ano de 2018 na USP. Nessa jornada, descobri não apenas uma edificação isolada, mas sim uma tipologia arquitetônica presente na área central da cidade na virada do século 19 para o 20. Os armazéns de café tiveram papel importante na economia cafeeira. Foram construídos para armazenar os grãos vindos das áreas produtoras no Interior do Estado enquanto aguardavam sua comercialização e exportação pelo Porto de Santos. O edifício que assistimos ruir em chamas foi originalmente construído para beneficiamento e armazenagem de café no início do século 20. Foi encomendado pela Companhia Paulista de Armazens Geraes (como era grafada à época), a primeira companhia de seu gênero a ser fundada no Estado de São Paulo, conforme publicações da época. O armazém possui estrutura externa composta por paredes de alvenaria autoportante de tijolos. Internamente, estrutura metálica formada por pilares e tesouras criam 5 vãos pensados para a estocagem de grande quantidade de sacos de café. No vão central, destaca-se um volume mais alto, de 2 pavimentos, em estrutura mista de alvenaria e ferro que se sobressai ao gabarito térreo do restante do edifício. Essa área foi projetada para abrigar máquinas de beneficiamento de grãos de café - processo de separação dos grãos por formato, tamanho e densidade utilizando movimentos mecânicos combinados com a gravidade e um conjunto de peneiras. Em 2012, quando eu ainda era estudante de Arquitetura, consegui driblar a burocracia e ter acesso ao interior do armazém, onde pude observar no volume central do edifício os indicativos da existência deste maquinário de beneficiamento de café. Imagem que guardo apenas na minha memória, já que o uso como armazém de mercadorias apreendidas pela Receita Federal não permitia registros fotográficos. Durante o incêndio, esses mesmos maquinários foram parcialmente revelados aos olhos públicos com a perda do telhado. O armazém é, portanto, um testemunho material do período áureo do café no Estado de São Paulo. Seus maquinários são testemunho tecnológico e memória do trabalho de uma época, guardando consigo a evidência do que um dia foi a arquitetura industrial santista. Junto ao inventário do que restou de mercadorias ali armazenadas, deve-se inventariar também o que sobrou da história material desse conjunto arquitetônico e todo esforço para preservá-la deveria ser tratado como prioridade. Apesar do descaso com que nosso patrimônio histórico é por muitas vezes tratado por nossa sociedade, mantenho em mim a esperança de que um dia esse armazém (ou o que sobrar dele) ganhe o reconhecimento que lhe é merecido.