(Imagem ilustrativa/Pixabay) Filho da Comadre Beatriz e do Compadre Maneco, Zé da Comadre era a personificação da joie de vivre. Beatriz, madrinha de batismo deste narrador, representava o elo sagrado que unia as famílias no Morro do Pacheco. Na década de 1950, ele encarnava o intelectual autodidata das comunidades operárias: um jovem que, em tempos de horizontes acadêmicos restritos, buscou nas páginas a sua bússola e fez do clima o seu laboratório a céu aberto. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No Pacheco, onde a geografia desafia as correntes atmosféricas, Zé não apenas empinava pipas; ele decifrava o cosmos. Como um intelectual dos ventos, ensinava aerodinâmica e meteorologia prática em seus barbantes sem cerol. Dominar as alturas era sua ciência popular, transformando o brincar em um estudo sobre o equilíbrio e a sustentabilidade da nossa casa comum, o Planeta Terra. Esta disciplina, nascida no solo do morro, dialogava com o rigor de Dona Maria, minha mãe. Entre os plantões na Santa Casa e a lida exaustiva na catação do café, ela moldava o caráter dos filhos pelo exemplo, ensinando que o suor do trabalho e o brilho do conhecimento eram faces da mesma moeda. Para ela, o esforço na faina e o compromisso com os livros percorriam o mesmo caminho: um único rito de passagem para a verdadeira liberdade. No Carnaval, porém, a liderança de Zé atingia o ápice. Aos 18 anos, ele já regia o Bloquinho dos Índios. Se o vizinho Turistas do Bairro Chinês impressionava pela estrutura, o Cordão de Zé arrebatava pela entrega visceral — em especial, por uma batida de som que movia o corpo de forma instintiva. Era um manifesto de liberdade: homens de peito nu e cocares ao vento, descendo em direção à Rua Visconde de Embaré, onde a cultura popular ganhava corpo e alma sob o olhar protetor dos pais. Na realidade, aquela agremiação era o pátio de uma escola sem muros. Sob a regência do mestre, os pequenos aprendiam que viver é arte coletiva — um exercício de alteridade onde todos remam para o mesmo porto. Entre a sabedoria dele e o zelo materno, a comunidade forjou mais que foliões; formou cidadãos conscientes de seu papel no mundo. É fascinante revisitar 1956 e perceber como aquele povo operava uma “engenharia da alegria”. O calendário era um precioso artesanato do tempo: em fevereiro, o pé de café e as penas; em junho, o papel de seda, os balões e as lanternas. Longe dos palácios, mas sob o sol do otimismo do presidente Juscelino Kubitschek, o Batalhão de Zé da Comadre realizava sua própria aceleração: a de transformar a escassez em brilho e o anonimato em protagonismo. Ali, entre os paralelepípedos e o céu, os jovens do morro provavam à cidade que o verdadeiro progresso não se ergue somente com cimento, mas com a dignidade de quem aprendeu a ler o vento para conquistar o horizonte. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado, mestre em Direito Ambiental, membro das academias de letras de Praia Grande e de São Vicente, do IHGS, do IGHMB e do Conselho Minerva da UFRJ