(Divulgação) Um homem simples da nossa região litorânea está sempre disposto, nos finais de semana, a levantar o astral das pessoas que circulam no Centro de Santos. Creio que os leitores de A Tribuna já o viram a caráter em reportagem de página inteira, tempos passados. Como ator de rua, “ele age, reage e se comporta, de acordo com os valores e princípios que orientam” a sua vida tão simples de microempresário do ramo de conserto de brinquedos. Tenho uma admiração enorme pelo amigo Zé Corneteiro, que me faz lembrar de um ensaio escrito por Elbert Hubbard – Mensagem a Garcia –, publicado como um enxerto sem título na revista Philistine de março de 1899, dando origem a dois filmes sobre o assunto. Embora Hubbard tenha afirmado que “eis um homem cuja forma deveria ser imortalizada em bronze e a sua estátua erigida em todos os colégios da Terra”, isso nos indica a importância da concentração da mente numa determinada coisa e fazê-la. Zé Corneteiro tem história centrada em um personagem ímpar, que se iniciou a partir de uma viagem que fizemos, eu e minha esposa, pela Europa Oriental. Na República Checa, tivemos a oportunidade de ver ex-combatentes vendendo nas ruas as suas lembranças da guerra de libertação da extinta União Soviética e do desmembramento da também extinta Iugoslávia, em 1922. É triste, sem dúvida, em todos os seus aspectos, ver ex-soldados de uma guerra justa vendendo suas lembranças para sobreviver. A corneta com alamares de guerra nos leva a refletir sobre uma frase de Heric Hartmann (1922-1993), piloto de caça alemão na 2ª Guerra Mundial. “A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisões de velhos que se conhecem, se odeiam, mas não se matam”. Parece paradoxal, o fato de um dos mais populares instrumentos de guerra atrair tantos jovens pela exaltação ao espírito de combate, assim descritos por Sun Tzu: os hinos aguçam a coragem, a corneta aguça a obediência; o tambor, a flâmula e as bandeias, aguçam respectivamente, a cadência, o comando e a vontade de acompanhar uma liderança marcante. O som de uma corneta ou os acordes de uma banda musical, seja qual for, sempre aguçam os ouvidos e a vontade de quem está ao alcance dos seus acordes: “coloque uma banda na rua e o povo vai atrás”, disse Napoleão Bonaparte. Pena que roubaram a corneta original do Zé Corneteiro, pois ela era de cobre e tinha alamares de guerra. Mas ele não desistiu: comprou uma corneta simples de carnaval e voltou à luta, como um soldado no “corpo a corpo”. Parabéns, Zé Corneteiro! *Membro da Academia Santista de Letras