[[legacy_image_279523]] Tudo na vida é símbolo, basta ter olhos de encantar. Teatro na raiz grega é isso: “lugar de onde se vê” e se vê reinventando universos. Zé Celso era a síntese ampla da cosmogonia brasileira: tupi, das Áfricas, denúncia social e gozo de todas as sensorialidades. Encarnou Dionísio nos trópicos, a divindade do entusiasmo. Entusiasmo: embriagado de Deus. Num ciclo mágico, sua última apresentação pública foi em Santos e incrível no festival sucedâneo do mesmo festival que o lançou ao mundo: o Fescete, que perpetua o Festa de Pagu! E olha que Pagu revivida é a homenageada pela Festa Literária de Paraty! Fortalecido pela precariedade do corpo, o espírito só com vibração nos deu todo seu percurso em duas horas de fala, em 15 de junho, no Sesc Santos, dez dias de casado em rituais intuitivos de despedida. Falou da infância em Araraquara, das raízes indígenas, do ímpeto de contar a poesia não em livros, mas no palco, celebrando o milagre visível que só os raros podem perceber. Falou muito da encenação da primeira peça: Vento forte para um papagaio subir, que estreou onde? No Teatro Independência, ovacionado por Pagu, que o abraçou “como bicho-preguiça”, ébria de fascínio pelo dramaturgo que surgia. Pagu passava o cetro sem honras, porque honra é coisa de senhor escravocrata. Pagu e Zé eram militantes de todas libertações. Zé Celso tinha uma obsessão que prostrou seu corpo e enfeitiçou de garra sua alma eterna: a luta contra o marco temporal e o genocídio dos indígenas com a morte de todos saberes da floresta que sustenta o mistério da terra. Queria encenar A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, livro de Davi Kopenawa que será o testamento-manifesto de todas as lutas encenadas pelo xamã transmoderno. Zé Celso “foram” – plural – porque o Oficina, raiz da arte intertextual brasileira, foi a Tropicália como conceito, foi o 68 tupiniquim, foi o grito contra a ditadura. Zé Celso foi a descolonização no 25 de abril, foi “O Rei da Vela” e “Roda Viva”. De Oswald a Chico Buarque, traçou um painel do Brasil que poderia ter sido e será! Não existe nenhuma chance de o Brasil não dar certo sem descobrir-se culturalmente. Não é o PIB, nenhum almejo de ser potência... Nosso segredo está na reconciliação com nossas raízes sufocadas. Zé Celso sabia que humano vem de “húmus”, seio da terra, seja no coração do Bixiga ou no Xingu. Fez do teatro plataforma para todas linguagens de “re-existência” como gostava de dizer: bacantes, canudos, yanomamis. Lembro do discurso de Alberto Moravia na despedida de Pasolini: “São necessários cem anos para surgir um poeta como ele”. Não era tão somente diretor, ator, encenador, era um demiurgo. Operário de sonhos factíveis, oficineiro de utopias realizáveis. Tudo é símbolo: sua cidade natal era a “morada do sol”. Meu artigo de 15 de junho foi último texto de sagração na página do Oficina. E antes aqui em A Tribuna. Poetas são antenas da raça, talvez seja isso. É preciso vidência para exercer o sagrado, é preciso abdicar de tudo que não seja arte para se fazer poesia. Zé Celso viveu artisticamente num país embrutecido que precisa ser cultivado por nós, que ficamos para semear a poesia da paixão. Salve o Bixiga do lucro, ele pode ser o epicentro de uma civilização de Eros e Arte! Evoé, Zé!