Imagem ilustrativa (Reprodução) Meu pai nunca gostou dos Beatles. Isso era mais evidente nos anos 1960, fase de minha primeira infância, quando os cabeludos em geral dominavam a cena internacional e nacional, numa segunda fase do rock e na explosão do iê-iê-iê. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Por economia e convicção, nosso corte de cabelo imposto era o “americano curto”. Mas era difícil “censurar” rádio e televisão, trabalhando durante o dia em empresa de transporte público, como eletrotécnico, e à noite e fins de semana, como projecionista de cinema. Minha mãe, um pouco mais liberal, assistia programas musicais como Astros do Disco, O Fino da Bossa, Corte Rayol Show, Moacyr Franco Show, os festivais da Excelsior, Record e de San Remo, Jovem Guarda, entrega dos prêmios Chico Viola e tantos outros, num tempo em que as emissoras tocavam músicas de excelente qualidade, em vários idiomas. Também era forçado a assistir Clube dos Artistas e Almoço com as Estrelas, mas ao menos isso contribui – e muito! - para minha cultura musical. O paradoxal é que meu pai me levou para assistir a vários filmes dos Beatles. Vi A Hard Day’s Night, Help e Yellow Submarine. Este último, creio que meu pai não imaginava a proposta por trás do psicodelismo que o permeava, sobretudo em músicas como Lucy in the Sky with Diamonds. Creio que ele se rendeu à sonoridade mágica dos cinco rapazes de Liverpool. Quanto a mim, os Beatles e Roberto Carlos abriram os horizontes para o que havia antes e depois deles. Hoje, um de meus passatempos favoritos é ver vídeos daquela época e ouvir os artistas que fizeram sucesso então, mas que eu só conhecia pelas músicas tocadas nas emissoras de rádio AM, numa época em que ainda não existiam os videoclipes. É uma agradável viagem a um tempo em que a gente ouvia uma música pela primeira vez e já saía assobiando, cantando ou, se estrangeira, embromando no estilo que Tavito tão bem descreveu: “Mandava um cha-la-la-lá / Puxava um ou ou ou”. Quando ele dizia que “os Beatles sempre perto me ajudavam / Na próxima canção”, resumia a prodigalidade e prodigiosidade de Paul, John e George, sob a batida firme e o sorriso contagiante de Ringo. Ainda bem que canções como Yesterday sempre nos lembram desse ontem em qualquer tempo em que boa música embalou nossos sonhos, nossos momentos românticos, nossas lembranças, nossas críticas, enfim, nossa vida. Isso é bem diferente da maioria do que ouvimos atualmente, massificação de péssima qualidade musical, letras agressivas, apologia do crime e do hedonismo alienante e inconsequente. Ainda assim, os Beatles, sempre perto, nos ajudam a pedir “Help!” na esperança de dias melhores para nossos ouvidos.