[[legacy_image_275687]] Até meados do século 20, a Literatura e o Direito eram irmãos siameses. A Literatura Brasileira moderna nasceu pujante no Largo de São Francisco ou de filhos de coronéis do Império e República a estudar em Coimbra. O bacharelismo era um vezo literário: a prolixidade, a eloquência desabrida, os arroubos preciosistas e discursivos do nosso verso e prosa marcaram o parnasianismo e a Belle Époque. Resta dizer que advogados eram os mais atentos leitores dos românticos alemães, naturalistas franceses e da profunda pena russa. Recordo ainda na resistência à ditadura a atuação brilhante de um dos maiores intelectuais brasileiros no comando da OAB federal, Raymundo Faoro. Ler sua obra-prima Os Donos do Poder é obrigatoriedade para conhecer a gênese da nacionalidade e o caráter brasileiro. Por aqui, no mítico Porto de Santos, recordo dois juristas que conviveram com o melhor da literatura paulista: o desembargador Aloysio Álvares Cruz e o dr. Nildo Serpa Cruz. Nildo era memória viva da nossa terra, interlocutor de Mário de Andrade, um gentleman nos trópicos. Recentemente, um bem mais jovem jurista literato (já foi pleonasmo!), o caríssimo amigo Manuel Pacheco Dias Marcelino, leitor voraz de Pessoa e Saramago, me relatou ter sido o primeiro presidente da OAB-Santos o escritor de relevo nacional Waldomiro Silveira que tanto admiro. Waldomiro, homem do Interior radicado em Santos na virada do século 19, constitui uma das mais influentes famílias das letras paulistas. A esposa Maria Isabel Silveira, uma grande memorialista, a filha Isa Silveira Leal, expoente da literatura infantojuvenil, e seu filho Miroel da Silveira, contista, dramaturgo e mestre pioneiro da crítica teatral na USP. Moravam numa suntuosa casa em frente ao atual Colégio Stella Maris. Solar onde Miroel casaria com Miriam Mendes, irmã de Gilberto Mendes, e onde brilhavam em saraus Monteiro Lobato e Martins Fontes . Foi Miroel quem descobriu a jovem Cacilda Becker para o estrelato. Waldomiro, nascido no Vale do Paraíba, tornou-se ‘inventor’ de um gênero que desaguaria na sofisticação estilística de Guimarães Rosa: a narrativa com prosódia e conteúdo sertanejos, regionalista, caipira. Mestres Antonio Candido e Alfredo Bosi reconheciam nele um pré-modernista à altura de Afonso Arinos, precursor da nossa brasilidade que dariam em Lobato, com Jeca Tatu, e Menotti Del Picchia, com Juca Mulato. Curioso que em Santos tenha nascido Renato Teixeira, caiçara da gema, tornado maior compositor da nossa genuína música caipira e que Waldomiro, introdutor da literatura caipira, tenha se tornado um caiçaríssimo magistrado santense. Qualquer antologia brasileira de contos que se preze tem mais de um texto de Waldomiro. A OAB santense, que comemora 90 anos, tem muito que se orgulhar do seu dirigente primordial. Num momento em que até o notório saber jurídico tem sido relativizado, sou otimista que a literatura de ficção e a poesia voltem a ser irmãs do Direito. Vedes Ayres Britto, mestre, doutor e poeta, que diferença de conteúdo.