(Reprodução TV) Li recentemente em uma matéria jornalística sobre a curiosa conexão entre o goleiro cabo-verdiano Vozinha — batizado como Josimar há 40 anos — e a dispensa de Renato Gaúcho e Leandro da seleção brasileira. Seu pai, admirador do futebol brasileiro, homenageou o lateral-direito que brilhou na Copa do Mundo de 1986 ao dar seu nome ao filho. Refrescando a memória: Renato Gaúcho e Leandro foram desligados da Seleção após retornarem atrasados de um dia de folga. Para a vaga de Leandro, foi convocado Josimar, jogador do Botafogo, inicialmente reserva de Édson Boaro. Uma contusão de Boaro logo em seguida abriu caminho para que Josimar assumisse a titularidade durante a Copa do México. A milhares de quilômetros dali, nascia o filho de Zé Pedro. Quarenta anos depois, aquele menino chamado Josimar tornou-se Vozinha e volta à América do Norte como goleiro da seleção de Cabo Verde, que disputa a primeira Copa do Mundo de sua história. E o que isso tem a ver com as borboletas? Eu explico. Na década de 1960, o meteorologista e matemático Edward Lorenz estudava modelos climáticos quando percebeu algo intrigante: uma alteração mínima nos dados iniciais produzia previsões completamente diferentes. Dessa observação nasceu uma das ideias mais fascinantes da ciência moderna: o chamado efeito borboleta. A metáfora tornou-se célebre. O bater das asas de uma borboleta no Brasil poderia, em tese, influenciar a formação de um tornado no Texas. Não porque a borboleta criasse diretamente o tornado, mas porque pequenas mudanças nas condições iniciais de um sistema complexo podem desencadear consequências enormes ao longo do tempo. O efeito borboleta é, acima de tudo, um lembrete da nossa limitação diante da complexidade do mundo. Ele nos ensina que ordem e caos não são opostos, mas parceiros de dança. Vivem entrelaçados em um equilíbrio delicado, onde o aparentemente insignificante pode alterar trajetórias inteiras. Quarenta anos depois de Josimar viver seus dias de Copa, Vozinha defende as cores de Cabo Verde em outro Mundial. Entre um e outro, talvez tenha passado apenas o discreto bater de asas de uma borboleta. A trajetória de Vozinha não é um efeito borboleta no rigor da matemática. Mas é uma bela metáfora para lembrar que a vida raramente segue linhas retas. Muitas vezes ela se constrói por desvios quase invisíveis, coincidências improváveis e acontecimentos tão pequenos que, quando ocorrem, ninguém imagina o alcance que terão décadas depois. *Marcio Aurelio Soares. Médico