(FreePik) Outro dia, fui acusado de ser culto. Constrangido, cabisbaixando, apenas esbocei um sorriso amarelo de soslaio. Seja lá o que isso significa, me senti ofendido, sem que essa fosse a intenção de meu amigo — afinal, já sabemos que temos que preservá-los. Fiquei pensando, e continuo, sobre o que ele exatamente queria dizer. Talvez um elogio. Vamos conversar sobre isso. No senso comum, cultura é sinônimo de erudição, longe do que sou. O médico Célio de Castro, ex-prefeito de Belo Horizonte e amigo querido, certa vez me disse, durante uma conversa regada a vinho, que cultura é aquilo que permanece depois que esquecemos o que aprendemos. Já o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro costumava destacar que a cultura é tudo aquilo que o ser humano cria para viver em sociedade. Portanto, no entendimento de ambos, somos todos cultos. Se a definição do meu amigo me deixou inquieto, a teoria de Pierre Bourdieu me deu o bisturi para dissecá-la. Para o sociólogo francês, o homem culto não é simplesmente alguém que possui muito conhecimento, mas aquele que acumulou “capital cultural”. A questão central é que esse conhecimento não é distribuído igualmente. Famílias com mais recursos tendem a transmiti-lo aos filhos mais cedo, o que lhes confere vantagens na escola e na vida profissional. Nesse prisma, ser "culto" seria dominar o capital valorizado pelas instituições de prestígio. Bourdieu, em sua obra A Distinção (1979), alerta que a cultura pode funcionar também como instrumento de distinção social. Nossos gostos — apreciar música clássica, ler James Joyce ou frequentar museus — não são apenas preferências individuais, mas marcadores sociais. “O gosto classifica os objetos, mas também quem os possui”, sentencia ele. Não confundamos, porém, o adjetivo do substantivo. O “culto” que discutimos aqui nada tem a ver com o “culto” do ato de venerar ou prestar devoção. A cultura, para mim, não reside apenas na leitura de um clássico empoeirado. Ela pulsa no saber-fazer, na inteligência prática que mantém a cidade funcionando. Quando chamamos alguém de "culto" apenas pelo que ela leu, cometemos uma violência invisível contra aquele que sabe fazer a vida acontecer através das mãos — o pizzaiolo, o pedreiro, o eletricista. Se, enfim, somos todos cultos, que possamos exercer nossa cultura sem a necessidade de distinção que separa, mas com a dignidade que nos iguala. Talvez, na próxima vez que me chamarem de culto, eu não precise baixar a cabeça. Posso apenas sorrir, sabendo que a cultura não mora apenas nos livros que li, mas também nas mãos do pizzaiolo que alimenta a cidade, do pedreiro que a ergue e do eletricista que a ilumina. Todos eles dominam saberes sem os quais a vida simplesmente não aconteceria. *Marcio Aurelio Soares. Médico