( Divulgação/Unsplash ) Eu não tenho a menor vocação para o comércio. Fico sempre com a impressão que estou prejudicando o comprador. Não que eu viva disso, nem poderia; morreria de fome. Ainda que eu não queira, eventualmente, tenho que vender alguma coisa; por exemplo, um carro. Que sofrimento. É tanto que, se eu pudesse, o daria de presente. No entanto, quando vou comprar, a sensação é inversa, sinto-me passado para trás. Resisto inicialmente, mas, depois, o negócio foi feito. Fico num misto de satisfação por ter adquirido aquele bem desejado, e, ao mesmo tempo, pensando se não poderia ter feito melhor negócio. Ao contrário, conheço gente que nasceu para a coisa. Transforma em ouro tudo que coloca a mão, verdadeiro Midas, figura mitológica. É necessário ter vocação até para roubar. Quem não me deixa mentir são os batedores de carteira, que têm as mãos tão leves que a vítima vai se aperceber da perda só horas depois do furto. Não é qualquer um. Tem que fazer a coisa direito. A bem da verdade, ninguém mais bate carteira, bate-se celular, o que não é exclusividade nossa. Na Europa eles são chamados de ‘pickpocket’, crime, em geral, cometido especialmente por meninas geralmente jovens. Elas entram em grupo no vagão do metrô, uma distrai a vítima e a oura, vapt, já foi teu celular. E você vai dar conta que perdeu só na estação seguinte. Você percebe que tem vocação para alguma atividade quando, nas primeiras vezes que a realiza, o faz sem grandes dificuldades, ou com maior facilidade que seus pares, o que é a mesma coisa. Eu lembro, ainda estudante, no quarto ou quinto ano de Medicina, durante a disciplina de Oftalmologia, fui apresentado a um oftalmoscópio. O professor ensinou a técnica para a realização da fundoscopia – exame de fundo de olho – ao mesmo tempo que nos prevenia da dificuldade para sua realização, o que exigia, no mais das vezes, a dilatação da pupila. Para minha surpresa, lá estava eu vendo os vasos sanguíneos, o nervo óptico e a retina, sem a aplicação do colírio. Nenhum dos meus colegas acreditava, e nem eu, mas que eu estava vendo, isso eu estava. Não uma visão aberta como quando se dilata a pupila, mas o suficiente para eu ficar entusiasmado e chegar a comprar o aparelho. Pensei em fazer a especialidade, vontade que deu e passou rápido. O que aprendi, devido à facilidade, ou vocação, como aqui estamos nos referindo, foi o suficiente para auxiliar minhas avaliações clínicas como médico generalista e endocrinologista. Até que um dia, um vocacionado, ou dois, resolveu me fazer uma visita, literalmente furtiva, durante uma madrugada. Talvez contassem com minha ausência, mas o certo é que foram abusados. Levaram o oftalmoscópio, o estetoscópio e meu esfigmomanômetro, além de muitas outras pequenas coisas. Passados mais de trinta e cinco anos, ainda devem estar mudos de perplexidade ao tentar pronunciar os nomes dos aparelhos. Eu acho isso muita ousadia, ou quem sabe, uma vocação extraordinária, mesmo que para o mal. A vocação é nata, mas a escolha do que fazer com ela é de cada um, mesmo que sendo resultado de suas vivências e do meio em que se está inserido. Não basta uma receita e bons ingredientes, o tempero da cozinheira é fundamental e o charme de um bom prato. * Marcio Aurelio Soares é médico.