(Unsplash) Um lugar pitoresco, tal qual a dramaturgia de Dias Gomes. Neste sítio, a pirâmide social está de cabeça para baixo. Na inversão de valores, o frágil carrega o imenso. Ali, encontra-se o escritor, sonhador e idealista, a observar o mundo do poder passar diante de si, enquanto ninguém parece se importar com os acontecimentos ao redor. Ele escreve por civismo, consciente de a tinta ser, às vezes, o único cadinho da justiça. Um dia cruzou com o bacharel em Direito, o famigerado Senhor das Regras. Esse desfilava sua empáfia pela rua do fórum. Patético cretino, perde-se em crases obtusas, gasta horas a fio para ignorar as belas letras em favor de uma política provinciana, alimentando mentores caricatos e corruptos, famintos por mando e desejos avassaladores de riqueza. Olhou-o com desdém de guardião da ordem, mas o escritor via através dele; o vazio de quem gravidou a República com promessas natimortas. Para o juiz, o povo não passa de um matagal de dormideiras, uma massa aceitando o rebuçado dos mártires enquanto recebe, na calada da noite, os beijos de Judas do orçamento público. O escriba, porém, prefere andar ao mundo num zé pereira contínuo. Há mais verdade na essência humana do que nos processos do togado. Existe uma casta nudez na realidade das ruas da cidade, um formosíssimo desvelo corporal; nenhum código jurídico consegue vestir. Enquanto ele se esconde atrás da toga, o literato sente uma sede de verdade, não estancável em cartórios. Entre Quixotes guerreiros, lutadores contra moinhos estatais, e Sanchos pacatos, esperando a próxima migalha, percebe a dignidade virar mercadoria. O nosso digníssimo personagem, proferiria: “Oh, pobre escritor! Santo Deus! Diriam os críticos se lessem minha alma, pois o sentimento não se encontra em obra nenhuma; é minha, só minha, exclusivamente minha...” Contudo, ele não perde a fé na força humana, sustentáculo daquele lugar. Pensa, como escreveu Júlio Ribeiro em 1888, “é o único povo que eu julgo capaz de uma revolução nesta pacata província”. Resta ao escritor esperar a Saudade, sentar-se ao seu lado para partilhar um cafezinho da tarde e sussurrar, “estarei sempre aqui, basta me chamar. Reacenderei em tua memória sorrisos, abraços na alma e dias leves. Não sou ausência nem esquecimento, simplesmente presença eterna”. Vocês podem achar, ironicamente, o menestrel da escrita um paladino da justiça. Para mim, ele é um cavaleiro solitário, visionário em poesia, delirante do verbo carregado de pontos de admiração, trazendo a angústia na alma, aquela, a latejar no coração. O juiz, mecenas do suborno, é o manipulador da inocência dos desavisados, para ludibriá-los e aniquilá-los sem vergonha alguma. Cabe a mim, como autor desta, ao final de algum dia, aguardar o pregão em ato para restituir os viramundos ao seu lugar de direito, longe da sufocadora corrupção da vida. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e secretário geral da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios