Imagem ilustrativa (Freepik) A vida vai passando. Ou, na melhor das hipóteses, vamos passando pela vida e, à medida que nosso conhecimento se expande, ironicamente, as certezas diminuem. Sempre me achei normal, conclusão alcançada por jamais ter me ocorrido matar alguém e ir ao cinema (ou à academia, como se deu recentemente com alguém que, presumo entediado com a angustiante vida nas redes sociais, resolveu tirar a vida de um gari). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Escapou-me a certeza da normalidade, e o veredito é óbvio: se não me conformo com o normal contemporâneo, o anormal sou eu. Criminosos circulam por áreas urbanas munidos de fuzis e granadas, fato que, há algum tempo, era capaz de provocar indignação. Agora, tornou-se mais do que comum, não gera qualquer desconforto, enfim, virou normal. No Rio de Janeiro, há poucos dias, criminosos sequestraram 12 ônibus, incendiaram um deles e os utilizaram para bloquear o acesso da polícia a uma comunidade (lembre-se, caro leitor, de que é preciso ter respeito pelos moradores dessas áreas, é fundamental chamá-las de comunidades e não de favelas – como se o desrespeito por aquelas pessoas não se traduzisse no medo, na extorsão e no fechamento de escolas e comércios impostos, rotineiramente, pelo crime organizado). Na TV, as reportagens sobre o episódio foram divulgadas logo após (ou um pouco antes, não importa) a apresentação da previsão do tempo pela sempre simpática jornalista – afinal, não seria o veranico em pleno inverno a única coisa anormal veiculada nos jornais nos últimos dias? A sociedade pindoramense tem se manifestado por meio de inquietos “iludidos” de direita que creem na diminuição da violência quando cada cidadão possuir uma arma embaixo do travesseiro, e de barulhentos “inocentes” de esquerda que acreditam na eliminação da violência condicionada à extinção das Polícias Militares (estou pensando enquanto escrevo: se não houvesse eufemismo, minhas crônicas seriam impublicáveis). Por sua vez, o Estado pindoramense tem se ocupado com questões mais nobres: democracia e soberania. Aliás, há palavras com etimologias mais sublimes, “poder do povo” e “poder supremo”? A violência cotidiana que bate à porta do cidadão se mostra como questão menor e, por ter se tornado normal, talvez atinjamos o estágio no qual entenderemos que nem seja mais necessário combatê-la. E me conforta tomar consciência de que necessito superar o obstáculo que é minha incapacidade de aceitar o normal.