[[legacy_image_349552]] Vivemos tempos ocos em que palavras e predicados são atribuídos a esmo, adjetivos sem real justificação. Os conceitos vão perdendo peso e um tem sido repisado aos quatro ventos: ícone! Ícone é um signo raro que não exige objetivação, imagem semiótica para quem ou o que catalisa propriedades difusas pelo poder de sua significação. Quando alguém me pergunta quem contém tudo que remete a Santos, só me ocorrem em suprema grandeza Pelé e Vicente de Carvalho. Em suas obras, das mais representativas do parnaso ou pré-modernismo nacional, revelam-se todos elementos que perfazem o sentimento atlântico do mundo, a alma caiçara, a potência telúrica do Litoral paulista que ele conheceu como poucos, entre a Bocaina e Iguape. O vento noroeste, o bafejo de maresia, toda metafísica extraída das ondas, os contornos da serra dando adeus ao cais... Desde Camões contam-se nos dedos os que tão bem poetizaram a transcendência alçada pelo poder das vagas, a inconstância das marés, o repouso das praias mais recônditas em língua portuguesa. Vicente pescador na Bertioga, Vicente contador de caso em roda de fogo, Vicente que do café fez todo ciclo: de corretor na Rua XV até fazendeiro na Mogiana. Tem símbolo mais santista que os jardins da praia? Devemos à sua ingerência com Epitácio Pessoa. O combate à peste bubônica e à febre amarela que inviabilizavam a salubridade de nossa terra e a pujança do nosso porto? Devemos ao secretário do Interior de Bernardino de Campos, que daria margem à criação do Emílio Ribas, ao velho isolamento, hoje Guilherme Álvaro, e logo depois ao esforço heroico de Saturnino de Brito. Tem poema mais abolicionista que Fugindo do Cativeiro? Tem brado mais fervoroso à natureza que o panteísta Palavras ao Mar? Algum outro verso emocionou tanto as sensibilidades de sua época que Pequenino Morto? O poeta do mar alcançou o virtuosismo de alçar o universal a partir das particularidades de sua gente e a atmosfera de seu pedaço de infinito. Tive a ventura de jovem privar da amizade de seu filho Augusto e ainda hoje de vários de seus descendentes, que perpetuam sua memória porque é a memória de todo um povo. Impus-me como dever de epígono estético e espiritual do vate maior retribuir ao tanto que ele me inspirou. Lembraremos os 100 anos de sua passagem, provando-o vívido com a inauguração, dia 3 de maio, da Casa das Culturas de Santos, uma exposição e um livro com análise crítica, poemas antológicos e um raro conto. A Fundação Arquivo e Memória tem empreendido ingente trabalho de resgate e o livro de minha lavra terá parceria com a Unisanta e Academia Paulista de Letras, na pessoa do grande mestre Ives Gandra Martins prefaciando. Envidaremos mais esforços, levando a obra e vida de Vicente aos jovens estudantes santistas, organizando saraus e espetáculos condizentes com sua trajetória artisticamente múltipla. Em Velho Tema, que compartilho como filosofia, eis a pérola: “Essa felicidade que supomos / Árvore milagrosa que sonhamos / Toda arreada de dourados pomos / Existe, sim: mas não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos”. Salve Vicente, presente!