(Reprodução/Pixabay) “O contador e o conto são muito diferentes”. Foi o que li há anos na introdução de algum livro. Não sei se concordo. Na verdade, discordo. O conto é prole do escritor, impossível serem substancialmente distintos. No texto, o contador imprime suas crenças, apresenta-se como é ou, ao menos, como deseja ser. É isso, nas crônicas, desnudo amálgama do que sou e do que ainda espero me tornar. Nesse texto, revelo o meio mais eficaz de terapia que encontrei: o entusiasmo por viajar. Procuro incentivar a todos que retirem viagens do papel (às vezes, exagero – meus amigos que o digam). Sei que nem todos gostam ou, por algum motivo, podem. Aí está a fonte de minha angústia alheia: há quem goste e possa, e não viaje. Não tenho dicas sobre otimizar espaço em malas ou reservar restaurantes Michelin. Costumo lembrar apenas que, para viajar, é preciso alinhar, necessariamente, três fatores: tempo, dinheiro e saúde. Quantas vezes faltou tempo para partir com as malas? E orçamento para deixar a casa para trás por uns dias? Saúde para se aventurar? Mas não são necessários muito tempo, grande fortuna e saúde de atleta. Sempre haverá destino adequado à realidade de cada um. Quaisquer outras questões não devem impedi-lo de deixar a casa vazia por algum tempo: medo por não dominar outro idioma, de se atrapalhar com o despacho de malas, de perder alguma conexão de avião ou de trem, ou de cometer gafe noutra cultura – aliás, gafes integram o mais bem-humorado e marcante acervo de lembranças. Então, defina o destino e o roteiro que melhor lhe atendam – galerias, museus, parques, estádios de futebol, praias ou montanhas, selecionados de acordo com suas preferências e a serem degustados pela alma. Não “maratone” lugares, desfrute-os em menor quantidade e com a calma necessária. Dicas singelas a ponto de serem, costumeiramente, desprezadas. Se, por acaso, houver tempo, orçamento e saúde acenando bem à sua frente, não deixe de se aventurar. Há sugestões, como investir em fundos imobiliários ou iniciar reforma em casa, que só devem ser apresentadas a inimigos – se os tivesse, pensaria seriamente em usar essa estratégia. Ao caro leitor, que se dispõe de bom grado a ler o que escrevo, se me permite, sugiro que vá conhecer (ou revisitar) o lugar onde a beleza – esculpida pela natureza ou criada pelas mãos de gênios do Renascimento –, indutora de inescapável contemplação, faz-nos chorar: Itália. Ótimas viagens! *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor