[[legacy_image_276346]] A cidade de Santos prossegue nas comemorações dos 115 anos do início da imigração japonesa, com mostra no Outeiro de Santa Catarina. Um local histórico bastante emblemático, pois foi projetado para substituir o extinto Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat, que ficava onde hoje está a Alfândega de Santos. As pedras da mais antiga fortificação do sistema defensivo colonial do Porto de Santos foram usadas para a construção dos primeiros metros do cais, substituindo os trapiches, e assim, se iniciou a contagem do tempo do chamado porto organizado. Mas, pretendo destacar aqui a chegada de outro navio ao Porto de Santos, o La Plata Maru, no dia 14 de setembro de 1934, com uma nova leva de imigrantes japoneses, dentre os quais o jovem Manabu Mabe (1924-1997), que viria a se tornar um dos precursores do abstracionismo no Brasil. Em 1959, Mabe conquista o Prêmio de Melhor Pintor Nacional, na 5ª Bienal Internacional de São Paulo, com as obras Composição Móvel, Pedaço de Luz e Espaço Branco. Consta ainda da sua biografia: “Em 1980 é premiado na 30ª Bienal de Veneza. Nos anos 1980, pinta um painel para a Pan American Union, em Washington, ilustra o Livro de Hai-Kais, traduzido por Olga Salvary, e elabora a cortina de fundo do Teatro Provincial, em Kumamoto, no Japão”. Manabu Mabe faleceu antes de ver a sua última obra-prima, o que foi assumida pela família: o painel Vento Vermelho, ocupando toda a parede principal da Capela da Fortaleza de Santo Amaro, em Guarujá. São 20 metros quadrados, com cerca de 200 mil pequenas peças milimétricas de acrílico, de diversos formatos e cores, assentadas uma a uma. As obras de Manabu Mabe podem ser acessadas pela internet, inclusive o Vento Vermelho. Por não ter deixado nenhuma descrição sobre a sua maior obra artística no Brasil, as pessoas, ao longo do tempo, foram “desvendando” as mensagens subliminares, daquele emaranhado de cores vivas. O mar, a vegetação, o sol e outras figuras significativas. Uma santa católica, cauda de um pavão, cavalo, arraia, golfinho, dragão, barco, tartaruga, caravela, sereia, porta-bandeira, e o vento e a noite com lua crescente. Segundo o repentista e guia turístico do mais expressivo conjunto arquitetônico militar colonial do Estado de São Paulo, hoje concorrendo ao título de Patrimônio Mundial pela Unesco, é uma obra que pode ajudar na pretensão acima. Foi assim que o enorme painel, Vento Vermelho, ou Vento do Sol Nascente, foi montado na Capela de Santo Amaro, pelo Estúdio Sarasá. Por este e outros motivos, o centenário da Imigração Japonesa no Brasil (2008) foi comemorado na Fortaleza. Naquela ocasião, antecedendo às comemorações oficiais, tive a grata satisfação de proferir uma palestra, na sede da Associação Nipo-Brasileira, em São Paulo, sobre a única fortificação de origem espanhola no Brasil. Daquela palestra tão simples, duas observações permanecem vivas na minha memória: a de que ninguém cerceia a liberdade de um idoso japonês, exceto por justa causa, e a de que uma simples palestra me levou a ser considerado por eles como professor. Na cerimônia oficial de comemoração do centenário (1908-2008), repleta de autoridades e representantes do Japão e do Governo do Brasil, recebi, com surpresa, a reverência dos membros daquela associação japonesa. O professor, no Japão, como sabemos, é a primeira pessoa a ser reverenciada. Esta cultura de respeito e valorização do professor, infelizmente, não chegou ao Brasil.