(FreePik) A velhice é um mosaico de percepções que oscila entre a nostalgia das perdas e a libertação do autoconhecimento. Se, por um lado, muitos a veem como o declínio dos prazeres sensoriais, da saúde e do vigor físico, por outro, é um capítulo de libertação, onde a diminuição das amarras sociais e emocionais abre espaço para novas perspectivas. Nessa jornada, a memória se transforma em um rio caudaloso, levando-nos de volta ao passado. Como Cazuza cantou, “o tempo não para”. Vejo o futuro ecoar em reminiscências da minha adolescência no Morro Pacheco. As eleições de 1962 para governador de São Paulo me transportaram para aquela época, onde o presidente da Sociedade de Melhoramentos dos Moradores do Morro Pacheco personificava a liderança comunitária e dependia, sobretudo, do apoio do prefeito de Santos para obter cimento, areia, ferragens e cal, materiais essenciais às obras que se faziam necessárias no morro. Com esses materiais, o presidente Paulo Gomes Barbosa e sua equipe construíam pontes, ajeitavam caminhos e canalizavam valas, garantindo a segurança dos moradores. Algumas vezes, na condição de assessor, acompanhei o presidente e os demais dirigentes da entidade nas visitas ao Gabinete do Prefeito para reivindicar melhorias para o Morro. Em um desses encontros, o alcaide José Gomes anunciou que inspecionaria as melhorias realizadas no Morro, na companhia do de José Bonifácio Coutinho Nogueira, candidato a governador, e do engenheiro Rubens Beyrodt Paiva, candidato a deputado federal, ambos pelo PTB. Vale ressaltar que Rubens era irmão de Carlos Paiva, empresário do setor portuário em Santos e grande benemérito da cidade. A família Paiva, naqueles tempos, praticava ações filantrópicas, contribuindo materialmente para minimizar as condições de vulnerabilidade de parte da população. Essa solidariedade aos mais carentes foi intensificada, sobretudo, após a catástrofe que abalou a Cidade no final do verão de 1956, quando chuvas torrenciais provocaram mortes e um grande número de desabrigados em diferentes pontos de Santos. No Morro Pacheco, as famílias deixaram suas residências alagadas, carregando seus pertences em busca de abrigo. Um caso emblemático foi o de uma moradora e seus dois filhos, forçados a deixar suas casas como flagelados. Contudo, a resiliência dessa mãe - no caso, a minha - e seu inabalável espírito de luta mostraram que voltar ao mesmo local de moradia, agora em outra casa, ainda era a melhor solução. Para ela, a familiaridade do morro representava mais do que um lar; era um espaço de memória e história, demonstrando que, apesar das dificuldades, as raízes da comunidade sempre seriam mais fortes que as adversidades. Assim, ao refletir sobre essas memórias, percebo que, embora a vida traga mudanças e perdas, ela é rica em aprendizados, onde cada experiência vivida fundamenta as decisões do amanhã. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental