[[legacy_image_270307]] Valongo, o “vai a longe”, corruptela popular do latim (e esquecido tão belo vallum logum) vinda de Portugal e que no Brasil teve descaminho infame como atracadouro do pérfido tráfico de escravos. No século 19, o nosso Valongo retoma aura mítica, ungido por Santo Antônio e os franciscanos, sendo sinônimo do progresso brasileiro pela chegada dos imigrantes e do café, via Santos-Jundiaí. A ligação do nosso porto, a hinterlândia rubiácea, foi o grande propulsor de nosso apogeu, assim como de São Paulo e do Brasil. Agora, com a incorporação ao Município da faixa do outrora denominada Quatro Cantos, podemos viver uma segunda mutação visceral em nossa concepção urbana. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Barcelona, Buenos Aires e Belém são algumas cidades que integraram seus portos às cidades-sede numa convergência harmônica, potencializando esse casamento com a vocação óbvia: lazer e cultura. Lazer com bom gosto e cultura no sentido radical de inventividade e cultivo. Santos e o cais têm vocação para o aconchego, não para a separação dispersa. Com um parque linear entre a estação icônica (termo na moda) e a altura do velho Paquetá, restituiremos a circularidade de ilha. Do berço estuarino serpenteando o canal e desaguando no mar infindo, Santos ocupará seu outro horizonte decaído em armazéns em ruínas para a paisagem radiosa. Ocupando nos últimos 100 anos os manguezais da orla transformada em zona nobre, descuramos da sede original da urbe e desde a Grécia sabemos que uma cidade–estado (nossa característica grandiosa) só se justifica como civilização quando mantém o "fogo sagrado" de sua fundação. Recorro ao Parque Central, do mestre Walter Benjamin, e inverto a sua equação: "O moderno não se opõe ao antigo; o novo não se opõe ao sempre igual". O mar reentrante que separa as ilhas de São Vicente e Santo Amaro será ressignificado com o reencontro do Centro revitalizado com a linha d'água rente ao nosso desejo de sentir a outra ponta de praia rediviva. Quando me volto às telas de Benedicto Calixto, sinto que o gênio figurativo intuía a capacidade propulsora que aquele porto de trapiches nos proporcionaria para o futuro. Seus quadros parecem "dizer" que nunca cidade e porto poderiam se apartar, embriões de um mesmo fruto. Concepção, conceito, ocupação: a cidade precisa ser ouvida sobre tudo. Sustentabilidade, inclusão e expansão verde devem nortear pressupostos básicos. Antenados, descolados, inventivos, todo bairro pós-moderno, de Nova Iorque a Lisboa, é repaginação humana de subúrbio degradado. Acima de partidarismos e de interesses corporativos, Santos tem com o Parque Valongo sua grande aposta de requalificação urbana. O momento de dar função, levar ação e resgatar uma narrativa, um discurso ao entre-lugares sem uso no nosso imaginário. Os ciclos econômicos passam, a habitabilidade muda de endereço e o desafio é moldarmos o rosto da Cidade incorporando suas cicatrizes sem deixar de vista nossos horizontes. "A cidade é feita mais de homens do que de construções", dizia o genial Paulo Mendes da Rocha, com sua visão poética da arquitetura bem além da sua funcionalidade estrita. Seria muito bom algumas audiência plurais, como as promovidos pelo fórum A Região em Pauta, de A Tribuna, para refletir sobre esse alvissareiro sonho que se realiza. É o Parque Valongo renascendo à noite, com a ferveção, a cativante gastronomia, a nossa "santisticidade" para o mundo que nos chega.