O Andarilho andou muito sob o sol a pino por nosso micromundão, encontrando fatos e ações espúrias. Em sua jornada, viu tudo o que queria e o que preferia não ter avistado. Nos seus tempos de janotinha, todos o bajulavam, de reis a primeiros-ministros, quiçá papas. Era a sensação do momento, o verdadeiro “rei da cocada”. Não que estivesse ele no ramo dos doces; era muito mais do que isso. Contudo, percebeu o interesse alheio voltado tão somente para a promoção própria. Ninguém o desejava como pessoa, visavam apenas às suas posses, e não eram poucas. Diante disso, sua paz interior ruiu; a bandeira vencida foi a leilão. Com ela, desmoronaram seu casamento, amigos, carros, casas, contas bancárias, sócios e, por último, empresas. Sem nada no bolso, caiu no mundo. Suas companhias passaram a ser a natureza e os bons samaritanos que, em raros momentos, lhe davam guarida. Pobrezinho do Andarilho, tão maltrapilho, esfarrapado pelos vieses ditados por essa vida vã, que acaba logo ali na frente, quando o peito, cético, toca a rebate e finda. De repente, um refúgio escondido, o berço esplêndido perdido. Berço não para dormir ou entregar-se à ociosidade, ficando meramente deitado; todavia, ética, educação, dignidade, ordem e progresso vêm de berço. Nem Sul, nem Norte, tampouco Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Um lugar perdido do Brasil. Lá, não existiam diferenças de classe, raça, religião ou gênero. Sem política nem juízes e políticos, visto que as regras funcionavam para serem cumpridas. Todos respeitavam as normas de conduta e o próximo; a confiança bastava no fio do bigode. Trabalhava-se para si e pela comunidade. A prosperidade reinava. Brasil esquecido pelo próprio Brasil, território que bem poderia ser real. Escondido entre o morro e o mar, talvez depois de Santos, dobrando à direita onde o mapa acaba. Fica fora do GPS por rejeitar a exploração de quem o procura. Quem chega, vindo exausto daquele outro Brasil barulhento, feito de buzina e ódio, estranha o cenário no primeiro dia. No segundo, o impacto diminui. No terceiro, já se vê ajudando a carregar caixas de manga, compreendendo que sempre pertenceu àquele lugar. Naquela manhã, ele estendeu as mãos calejadas para receber uma caneca de café fresco. Sentou-se no banco de madeira sentindo o vento sudeste vindo do oceano. Olhou para o horizonte onde as ondas quebravam. Seus olhos marejados finalmente compreenderam o limiar daquele mapa apagado. Não fora um acidente de percurso, mas o destino final de sua alma esfarrapada. O Andarilho? O Andarilho, desejava simplesmente ter uma casinha branca, de varanda, um quintal e uma janela para ver o Sol nascer. *Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios