(Imagem ilustrativa/Pexels) Por muitos anos, proferi palestras sobre estratégia nos cursos da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Estratégia, como sabemos, é uma arte focada na aplicação do poder para alcançar um objetivo estabelecido por uma orientação política. Para tornar o assunto um pouco mais atraente, valia-me sempre de uma frase emblemática do almirante João Carlos Gonçalves Caminha, no livro Delineamento de uma Estratégia: “Ser inerente à vida tanto a busca do melhor viver quanto a recusa em partilhar o essencial ao bem viver”. Procurava, assim, adaptar uma breve “história” sobre o cotidiano de uma suposta tribo indígena que vivia isolada, sem qualquer contato com outras tribos vizinhas. A felicidade da tribo era assegurada por fatos cotidianos de uma existência isolada, sem quaisquer referenciais de condutas externas, que pudessem provocar o que os economistas chamam de “efeito demonstração”. Certo dia, surgiu uma tribo de esfarrapados do outro lado do rio que banhava a aldeia da tribo feliz. Sem qualquer habilidade sobre a “arte da guerra”, o cacique reuniu suas lideranças para discutir o que deveria ser feito. Resolveram então, contratar um especialista em assuntos militares para estabelecer planos progressivos de busca de uma solução. O especialista em ações de combate indicou as ações necessárias para quebrar uma possível resistência da tribo de esfarrapados, iniciando pela parte parlamentar (direito de posse da terra), seguida de outras ações pontuais e progressivas: vigilância, embargo, fechamento de entradas e de acesso ao rio divisor etc. Por fim, “ação em força”, se necessário, iniciando com a preparação de um “pelotão de combate”. A preparação militar incluía o recrutamento dos jovens da tribo, a produção de arcos e flechas, o treinamento diário, a prioridade de alimentação para os guerreiros etc. Em seguida, disse o especialista, é preciso realizar uma “demonstração de força”, por meio de três componentes de um sistema defensivo apoiado em uma “política de defesa”: levantamento, preparação e capacitação do estamento militar. Um plano faseado de ações a realizar deveria iniciar com prudência (negociação, mediação, arbitragem) e prosseguir com ações ofensivas pontuais. Foi assim, ou quase assim, que a tribo feliz que vivia em um vale encantado se preparou para enfrentar um possível embate fratricida em defesa dos seus interesses maiores. Foi assim também que surgiram naquelas terras virgens os fundamentos de uma estratégia dissuasória, visando evitar a aplicação do poder militar. São poucas as pessoas, mesmo na atualidade em que vivemos, que se importam com estes assuntos tão bem descritos nos documentos atualizados e aprovados periodicamente pelo Congresso Nacional e disponíveis na Internet: PND (Política Nacional de Defesa), END (Estratégia Nacional de Defesa) e LBD (Livro Branco de Defesa). Consulte-os se o assunto for do seu interesse. Defesa é um assunto pertinente a todos nós, brasileiros. *Membro da Academia Santista de Letras