(Imagem ilustrativa) Por muito tempo, a sociedade construiu narrativas simplificadas sobre pessoas com deficiência. Elas são transformadas em símbolos, ora heróis de superação, ora figuras frágeis que inspiram piedade, ora exemplos motivacionais usados para confortar quem não vive a mesma condição. Essas representações, apesar de soarem positivas, reduzem o indivíduo a um exemplo, apagando sua complexidade. A humanização significa romper com essa lógica e reconhecer que as limitações funcionais são apenas uma das dimensões da experiência humana, não o eixo absoluto que define uma identidade inteira. Pessoas com deficiência não existem para ensinar lições morais, nem para serem admiradas por simplesmente fazerem parte da sociedade. Elas se afirmam, antes de tudo, como sujeitos, com afetos, frustrações, ambições, talento, medo e alegria. Quando alguém é visto apenas como inspiração ou tragédia, sua presença em espaços culturais, óperas, concertos musicais, em contextos esportivos e sociais, continua sendo percebida como extraordinária, e não como um direito. É necessário normalizar a presença, garantir acesso, visibilidade e participação, sem que isso seja tratado como espetáculo. Atravessada pela experiência pessoal, ao necessitar de uma cadeira de rodas, imprimi os desafios e aspirações desse momento em O Percurso que os Cascos Enxergam por Mim. Na obra, a deficiência visual não é representada como um fim, mas como deslocamento. Assim como nessa ficção, as narrativas reais não devem transformar pessoas em símbolos, mas entendê-las como detentoras de sentimentos. Humanizar é ouvir. É permitir que sejam as próprias vozes de suas histórias, definam suas narrativas e construam suas representações. É reconhecer que não existe uma vivência única, são múltiplas e atravessadas por classe social, gênero, cultura, território e afetos. E compreender que mesmo quem não tem nenhuma condição limitante precisa desenvolver essa consciência integradora. Romper com a lógica é um convite para enxergar além dos rótulos. É compreender que a deficiência não é uma metáfora, nem um recurso narrativo ou discurso motivacional. É uma condição humana que coexiste com as questões individuais. É devolver à pessoa o direito de ser inteira, complexa e contraditória. E, sobretudo, o de existir sem precisar ser reduzida a pressão moral de ser exemplo a todo momento, romantizando os desafios que enfrentam todos os dias. *Ariadine Netto. Pós-graduada em Marketing, musicista e escritora de O Percurso que os Cascos Enxergam por Mim