(Vanessa Rodrigues/AT) Na universidade, durante a aula da Teoria da Narrativa, o professor propôs um exercício sobre estilo literário. A tarefa consistia em escolher um autor e escrever um texto inspirado no seu estilo. Entre opções – Amado, Guimarães e Mia Couto – decidi me aventurar no universo de José Saramago. Eis o texto: As águas percorrem o ventre da cidade como se costurassem, desfiando memórias de outrora e os ecos das barcas que já não passam, é o leitor que me entende bem e sabe que aquilo que não se diz mas se sente é aquilo que se faz verdade, os canais de Santos não são apenas artérias de um corpo urbano, são veias onde o passado e o presente se misturam sem cerimônia, ah, leitor, é curioso, como água mole em pedra dura, os canais, tão retos e tão tortos, enquanto serpenteiam pela cidade sem pedir licença, Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! E como não falar da lama que descansa em seu leito? Perguntar-me-ias se é apenas sujeira ou há algo mais profundo? Pois saiba, leitor cúmplice, que na convivência entre o lodo e a vida está o coração da cidade, o paradoxo de que o feio é belo e de que o descartado é essencial, se o cheiro incomoda alguns, para outros é mais do que aroma, é identidade, uma marca tão forte quanto o sotaque de quem aqui nasceu, E as árvores? As árvores, essas antigas senhoras que ladeiam os canais, como guardiãs de um tempo que já foi, estendem seus galhos como braços em prece ou dedos que apontam para o inevitável, a convivência entre o concreto e o verde, entre o passado anacrônico e o futuro que insiste em se apressar, Quantas metáforas cabem mais nessa cidade? Quantos provérbios ainda podemos espremer dessas ruas que refletem na água dos canais? E agora me perguntam, será que esses canais representam apenas a cidade? Ou representam o próprio espírito das pessoas que nela habitam, navegando entre sonhos e batalhas, entre progresso e nostalgia?, Assim, caro leitor, com a cumplicidade que me é permitida, deixo-te com essa paisagem de palavras, para que também tu caminhes pelos canais, não com os pés mas com o pensamento, porque Santos é mais que a soma de seus canais, é a interrogação constante que flutua entre a saudade e a posteridade, é a pergunta que nunca se responde completamente, é o eco que nos deixa com mais dúvidas que respostas, e talvez seja essa a beleza maior, essa a poesia que seus canais, seus lodos e suas águas querem nos mostrar. Com esse exercício, percebi que escrever ao estilo de Saramago é um verdadeiro mergulho em sua singularidade, quando os limites entre prosa e poesia se desfazem, e cada palavra ganha uma força especial. Um exercício desafiador e enriquecedor que despertou uma reflexão sobre a essência do ato de escrever. E isso, sim, é uma questão de estilo!